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Tipos Psicológicos (Introvertidos e Extrovertidos): Uma Breve Visão da Teoria de Carl Jung

Atualizado: 26 de fev.

Introdução


A teoria dos tipos psicológicos e funções da consciência é um conceito fundamental desenvolvido por Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica. A teoria de Jung busca explicar as diferenças individuais na forma como indivíduos percebem, pensam e tomam atitudes na sociedade. Neste artigo, os tipos psicológicos de introvertido e extrovertido. Não é minha intenção me delongar muito neste artigo, mas apontar os pontos principais, já que vemos na internet muitas informações confusas.





Vale lembrar que quando falamos de Tipos Psicológicos estamos falando da Consciência! Nenhum tipo ou função que abordarei aqui é inconsciente. Uma função menos desenvolvida pode ser a "porta de entrada" de complexos, mas isso não quer dizer que a função é inconsciente. Tipos e funções psicológicos são da Consciência.


Consciência é também relação, por isso, fique sempre em mente que os tipos e funções são formas que o indivíduo desenvolveu para se relacionar com o mundo!


Tipos Psicológicos: Introvertidos e Extrovertidos

De acordo com Jung, existem dois tipos básicos da personalidade consciente: introvertida e extrovertida. Essas categorias estão relacionadas à direção do foco de energia de uma pessoa e a forma como interagem com o mundo.





Introvertidos


Os introvertidos, isto é, "verter para dentro"! São pessoas cuja foco é principalmente em seu mundo interior e nas próprias percepções e pensamentos. Jung observou que os introvertidos tendem a ser mais introspectivos e independentes, concentrando-se na compreensão de si mesmo e no cultivo de habilidades e conhecimentos internos. Tendem à autoconservação antes de se relacionar com o outro, se lermos esse tipo à luz de Adler, como Jung o faz em Psicologia do Inconsciente. Introvertidos podem ser confundidos com indivíduos reservados ou tímidos, mas essa impressão é enganosa, pois eles são, na verdade, bastante envolvidos com seu mundo interior. E onde ficaria o tipo extrovertido numa pessoa assim? Jung discorre que se a introversão é superior, a extroversão está presente também, mas é inferior.


Quando a função superior for introvertida, as opiniões subjetivas se interpõem entre a percepção do objeto e o agir. O agir se dará a partir da opinião subjetiva e não do objeto. A opinião subjetiva implica uma vivência subjetiva, o que significa um aprofundamento da experiência e também uma forma de dominar a relação com o objeto, transferindo-a para dentro de si. Se orienta por aquele fator da percepção e conhecimento representativo da disposição subjetiva que acolhe a excitação sensorial.


"Entendo por fator subjetivo a ação ou reação psicológica que, sob a influência do objeto, se funde num novo estado psíquico, ou seja: é a experiência que modifica o sujeito. Seu excesso leva a uma subjetivação artificial (não mais modificaria o sujeito). O mundo não existe apenas em si mesmo, mas também é o que representa pra mim. [...] É peculiaridade típica do introvertido que, seguindo sua própria tendência ou algum preconceito comum, confunda seu eu com seu si-mesmo e eleve o primeiro a sujeito do processo psíquico, consumando assim a subjetivação mórbida, acima mencionada, de sua consciência, que o torna estranho ao objeto. (OC6, $§ 692-695)


A função inferior extrovertida faz com que o objeto e o dado objetivo exerçam uma influência assaz poderosa e que se torna insuperável, porque se apodera inconscientemente do indivíduo e se impõe irresistivelmente à consciência. Devido à deficiente relação do eu com o objeto - querer dominar não é adaptação - surge no inconsciente uma relação compensatória com o objeto que se manifesta como vinculação incondicional e irreprimível ao objeto. O eu quer ser independente, superior, mas a liberdade do espírito fica presa à vergonhosa dependência do objeto. O prazer de dominar acaba em desejo de ser amado. O objeto assume dimensões assustadoras, apesar das tentativas conscientes de rebaixá-lo. O introvertido, em consequência, se separa completamente do objeto e se dedica, por um lado, a medidas de segurança e, por outro lado, a tentativas inúteis de impor-se ao objeto e afirmar-se. (OC6, §§ 697-699)"


Extrovertidos


Os extrovertidos, por outro lado, são indivíduos que se concentram no mundo externo e nas interações com outras pessoas. Jung observou que os extrovertidos são mais adaptáveis e orientados para a ação, buscando ativamente se envolver com o mundo ao seu redor e os outros. Os extrovertidos geralmente são percebidos como expressivos, sociáveis e entusiastas, mas não necessariamente são.


"Na função superior extrovertida, predomina a orientação pelo objeto e pelo dado objetivo, de modo que as decisões e ações mais frequentes e principais sejam condicionadas não por opiniões subjetivas, mas por circunstâncias objetivas. O objeto, como fator determinante, desempenha em sua consciência papel bem maior do que sua opinião subjetiva. Sua consciência toda olha pra fora, porque a determinação importante e decisiva sempre lhe vem de fora. O agir sempre tem um caráter adaptável às circunstâncias, as leis morais do agir coincidem com as exigências da sociedade. [...] Ele tem ajuste, mas não adaptação, pois esta exige mais do que simples acompanhamento harmonioso daquelas condições da ambiência imediata. Exige observância daquelas leis que são mais gerais do que as circunstâncias de lugar e tempo. O puro e simples ajustamento é o limite do extrovertido. [...] Sua 'normalidade' tem por efeito o fato de o extrovertido levar em muita pouca consideração a realidade de suas necessidades subjetivas. Chega a negligenciar a saúde do próprio corpo. O perigo do extrovertido está em querer ser atrai-do para dentro do objeto e lá se perder completa-mente. (OC6, § 627-633)


A função inferior introvertida tem forte tendência egocêntrica no inconsciente, e concentra a energia sobre o momento subjetivo. As pretensões inconscientes têm caráter primitivo, infantil e autista. O brutal egoísmo inconsciente pode superar de longe o infantil e chegar às raias do perverso. No exagero do roubo de energia e unilateralidade da consciência, o infantilismo, egoísmo e arcais-mo perdem seu caráter compensatório e entram em oposição mais ou menos aberta à atitude consciente, assumindo, assim, caráter destrutivo. Uma atitude extrovertida normal não significa nunca que o indivíduo se comporte sempre e em toda parte segundo o esquema extrovertido, apenas prevalece o mecanismo da extroversão. (OC6, § 636-640)"


É importante ressaltar que a maioria das pessoas não se enquadra inteiramente em uma dessas categorias; elas podem exibir características de ambos os tipos psicológicos, dependendo da situação ou contexto.


C. G. Jung, em Psicologia do Inconsciente faz uma metáfora para entendermos melhor:


“Dois rapazes caminham juntos pelo campo. Chegam a um castelo maravilhoso. Ambos gostariam de ver o castelo por dentro. O introvertido diz: “Gostaria de saber como é por dentro”. O extrovertido, por sua vez, diz: “Vamos entrar”; e vai entrando pelo portão. O introvertido o detém: “Talvez seja proibida a entrada”, imaginando vagamente uma série de represálias, como violências policiais, multas, cachorros brabos etc. Ao que o outro replica: “Podemos perguntar, na certa vão nos deixar entrar”, imaginando velhos porteiros afáveis, castelões hospitaleiros e possíveis aventuras românticas. Graças ao otimismo do extrovertido, conseguem realmente entrar no castelo. Mas agora começa a peripécia. O castelo foi reformado por dentro. Só tem umas poucas salas, com uma coleção de velhos manuscritos. Por acaso, essa é a paixão do rapaz introvertido. Mal chega a vê-los, fica como que transformado, absorto na contemplação dos tesouros, suas palavras exprimindo entusiasmo. Envolve o guarda numa conversa, para obter mais informações. Como as respostas do guarda não o satisfazem, ele pergunta pelo conservador e sai imediatamente à sua procura, para continuar a investigação. Mas, enquanto isso, a animação do extrovertido vai diminuindo cada vez mais; vai ficando de cara comprida e começa a bocejar. Nada de porteiros afáveis, nada de hospitalidade cavalheiresca, nem sombra de aventuras românticas: apenas um castelo reformado. Não precisava ter saído de casa para ver manuscritos. Enquanto cresce o entusiasmo de um, vai acabando a disposição do outro; o castelo o aborrece, os manuscritos cheiram a biblioteca, a biblioteca faz com que se lembre da faculdade, a faculdade é associada a estudo, exames: uma ameaça. Pouco a pouco, um véu sombrio vai descendo sobre o castelo, antes tão interessante e atraente. O objeto fica negativo. “Não é formidável”, exclama o introvertido, “descobrir essa coleção maravilhosa assim por acaso?” “Eu estou achando isso aqui muito sem graça”, responde o outro, sem esconder o seu mau humor. Isso irrita o primeiro, que resolve para si mesmo: “Nunca mais vou viajar com esse sujeito!” O extrovertido, por sua vez, fica irritado com a irritação do companheiro, pensa que sempre achara o outro um perfeito egoísta, sem a menor consideração pelos outros. “Onde já se viu desperdiçar a linda primavera lá fora! Poderíamos estar aproveitando! E tudo por causa dessa curiosidade egoísta!” Que foi que aconteceu? Ambos caminham juntos em alegre simbiose, até chegarem ao castelo fatal. Lá dizia o introvertido “pré-meditativo” (prometeico): “Poderíamos vê-lo por dentro”. O extrovertido ativo e “pós-meditativo” (epimeteico) abriu o caminho . Nessa altura, o tipo se inverte: o introvertido, que hesitava em entrar, não quer mais sair e o extrovertido amaldiçoa o momento em que entrou no castelo. O primeiro fica fascinado pelo objeto; o segundo, por seus pensamentos negativos. No instante em que o primeiro avistou os manuscritos, já estava perdido. Sua timidez desapareceu, o objeto tomou posse dele: entregou-se docilmente. Em compensação, o segundo sentiu uma resistência crescente em relação ao objeto e, finalmente, fez-se cativo do seu sujeito mal-humorado. “O primeiro tornou-se extrovertido; o segundo, introvertido. Enquanto os dois caminhavam juntos na mais alegre harmonia, um não perturbava o outro, porque cada qual estava “na sua”, naturalmente. Eram positivos um para o outro, porque as suas atitudes se complementavam. Mas complementavam-se porque a atitude de um sempre compreendia a do outro. A rápida conversa que tiveram é ilustrativa: ambos querem entrar no castelo. A dúvida do introvertido quanto à permissão para entrar também serve para o outro. A iniciativa tomada pelo extrovertido também é de utilidade para o introvertido. A atitude de um também inclui o outro, e isso é quase sempre assim quando um indivíduo está na atitude que lhe é natural, porque essa atitude se adapta coletivamente, por assim dizer. Com a atitude do introvertido também se dá o mesmo, apesar de que ela sempre parte do sujeito; vai sempre só do sujeito para o objeto, enquanto que a atitude do extrovertido vai do objeto para o sujeito.” (OC 7.1, §81-82)


Conclusão


A teoria dos tipos psicológicos introvertidos e extrovertidos de Carl Gustav Jung oferece uma visão perspicaz e valiosa das diferenças fundamentais na personalidade consciente humana. O livro Tipos Psicológicos (OC6) é rico em exemplos e detalhes. E ainda, demonstra como diversos autores tentaram classificar os tipos de personalidade: sístole e diástole; epimeteu e prometeu; apolíneo e dionisíco, enfim. Essa abordagem tem sido fundamental para expandir nossa compreensão da complexidade e diversidade das personalidades individuais, permitindo que as pessoas reconheçam e aceitem suas próprias características, bem como as dos outros.


Ao longo dos anos, as ideias de Jung tem sido objeto de estudo, adaptação e validação por meio de várias abordagens científicas, incluindo a psicometria e a neurociência. Instrumentos como o Indicador de Personalidade Myers-Briggs (MBTI) tem suas raízes na teoria de Jung e são amplamente utilizados em diversos contextos, como aconselhamento, terapia, desenvolvimento pessoal e profissional. No entanto, C. G. Jung sempre foi contra esse movimento, sendo contundente que o estudo dos Tipos Psicológicos não deveria tornar-se um instrumento.


Em última análise, a teoria dos tipos psicológicos de Jung nos encoraja a abraçar e valorizar a diversidade de personalidades que encontramos em nossa vida cotidiana. Ao compreender as diferenças entre introvertidos e extrovertidos, podemos cultivar empatia, melhorar a comunicação e criar ambientes mais harmoniosos e produtivos em nossas relações pessoais e profissionais, isto é alteridade.


Leonardo Torres, analista junguiano.






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