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O Ego Solar e a Jornada Rumo ao Ego Lunar: o caminho para a completude

Atualizado: 19 de out. de 2023

Eis um dia de sol. Em seu auge, o sol, intenso e dominador, brilha, lançando luz sobre tudo, e também projetando sombras inescapáveis. Nem ao meio dia se escapa da projeção da sombra solar. É sobre este sol e sobre a lua que quero imaginar hoje à luz da psicologia analítica, fundada por Carl Gustav Jung.


O Ego Solar e a Jornada Rumo ao Ego Lunar: o caminho para a completude
O Ego Solar e a Jornada Rumo ao Ego Lunar: o caminho para a completude

Não existe uma cultura sequer que não fez do sol um símbolo. O simbologia do sol é vasta e não caberia aqui neste artigo. Fico somente com a ideia que presenciamos hoje. Neste mundo atual em que, como aponta Byung Chul Han, o indivíduo sente-se impelido em ser cada vez mais performático, produtivo, poderoso, positivo e dono de si, não é difícil associar a estrela que deu a vida ao planeta ao devir do indivíduo massificado. A onipotência que experenciamos diante do sol está relacionada com aquilo que o ego quer se tornar.


Não à toa Eric Neumann nomeia de "ego solar" um dos estágios de desenvolvimento da consciência. O ego solar é uma metáfora para o ego relativamente diferenciado do inconsciente e centralizado na consciência, que se assemelha ao sol em sua intensidade e centralidade. Nesta fase, que localiza-se por volta dos dois, três anos de idade, a criança tem como processo uma relativa emancipação da mãe; um sentimento de onipotência; e de centralidade. Isso se dá pois o ego da criança começa a ser mais autônomo, tanto psíquica quanto corporalmente, o que leva a criança à inflação.


Que fique evidente que este processo é necessário e saudável para as crianças. O problema é que muitos indivíduos estacionam nessa fase e continuam dessa maneira na vida adulta – se percebendo como o centro do nosso sistema solar, ou até do universo inteiro.


Assim como o sol domina o céu diurno e tudo gira em torno dele, o ego solar assume uma posição central na psique, acreditando ser o único agente da psique e detentor do poder.

Aquela frase "só depende de você" é um belo exemplo disso. O ego ou o "eu" se vê como único e central, irradiando luz e projetando a sombra em tudo e todos.


Indivíduos assim encontramos a cada esquina: aquele que não se responsabiliza por nada; aquele que considera todos a sua volta como inferiores, imorais ou errôneos. O famoso "cidadão de bem". Afinal, o sol não tem sombra. Isso significa que o ego solar acredita também não ter sombra. Vale lembrar que a sombra é composta, resumidamente, por conteúdos reprimidos, normalmente de cunho imoral, que quando descobrimos em nós queremos negar.


Para não reconhecermos em nós esses conteúdos: a projeção. Isto é, perceber tais conteúdos nos outros e rechaçá-los é um mecanismo de defesa do ego solar.

Outro ponto é a cegueira do ego solar. Ninguém consegue olhar diretamente para o sol. Quem o fizer corre o risco de ficar cego literalmente. Não recomendo a experiência. Assim como isso se dá com o sol, o ego solar é cego para si ou jamais confrontou sua imensa luz.


Olhando essa imagem criada, podemos depreender que o ego solar nunca conseguiu olhar diretamente para o brilho que ele acredita ter. Ele crê, somente. Não sujou as mãos na empiria, pois, se sujasse perceberia que não brilha tanto assim. O ego identificado com o sol no adulto nada mais é do que uma crença do indivíduo ser um brilho ilusório que jamais foi comprovado por ele. Ou, se olhou, tornou-se cego. Talvez a escuridão lhe faça bem.


Essa escuridão pode lhe fazer bem quando, buscando afirmação e reconhecimento de ser o sol, se vê em conflito com as sombras, ou seja, seus aspectos inconscientes. Este é o único caminho para o ego solar começar a se perceber.


A psique possui uma rica tapeçaria e suas múltiplas dimensões. A resultante unilateralidade de se identificar com o sol pode levar o indivíduo a uma desarmonia; à distorções de realidade; a uma desconexão com os aspectos mais profundos de si; e até mesmo à doenças.


Rumo ao ego lunar


À medida que o dia dá lugar à noite o céu se transforma. A lua surge, refletindo a luz do sol sem cegar, e as estrelas aparecem, cada uma contribuindo com sua própria luminosidade. Esta é a minha proposta para o ego: sua fase lunar. Um estado de ser em que a luz solar permanece, mas em harmonia com os outros corpos celestes da nossa psique. A lua, em contraste com o sol, não tem luz própria, mas reflete a luz solar. Isto sugere um ego que ainda reconhece a luz (vinda do sol), mas não é ofuscado ou cegado por ela.


Um ego lunar é receptivo, permitindo que outras luzes apareçam no "céu" da psique estrelada. Esta é uma imagem de um ego que coopera com o inconsciente ao invés de lutar contra ele.

Você poderia me perguntar: e quem é o sol senão o ego? Se a luz do sol reflete no ego lunar, podemos depreender que o sol, que cria e destrói, é o si-mesmo. A imaginação do ego lunar possuir a luz do sol é exatamente a ideia de eixo ego-si-mesmo que Edward Edinger nos ensina. Podemos ampliar para Narciso, já que foi o próprio sol que fez Narciso entender que aquilo que o rapaz se apaixonara, na realidade, era seu próprio reflexo. Antes Narciso era o próprio sol. Na medida em que percebeu a estrela, diferenciou-se e se reconheceu. Mas não quero ficar com Narciso agora. Voltemos.


O si-mesmo nessa imaginação é tanto o sol como um corpo lumicentral, como a soma de todas as estrelas existentes. É um paradoxo, eu sei, mas se o si-mesmo não o for, ele deixa de ser o si-mesmo.


Rumar para um ego lunar não significa rejeitar a luz solar. Ao contrário, significa integrar essa luz de maneira harmoniosa, permitindo que ela permaneça e se realize. Em vez de um céu dominado por um único ego-sol brilhante, podemos imaginar uma noite estrelada, onde diversos corpos celestes coexistem, cada um contribuindo para certa iluminação do todo. Já os buracos negros terei que deixar para outra imaginação.


Ao abraçar a jornada do ego solar para o lunar somos convidados a uma expansão de consciência e a uma diminuição do ego.

Em vez de nos apegarmos rigidamente ao nosso individualismo, podemos abrir espaço para uma multiplicidade de vozes, lampejos e perspectivas. Isso nos leva a uma forma mais rica e integrada de ser.


Leonardo Torres, analista junguiano.

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