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Hermes e Héstia na segunda metade da vida adulta

  • há 6 dias
  • 11 min de leitura

Autoria: Daniela de Paula, analista junguiana

Revisor: Leonardo Torres, analista junguiano


O limiar da travessia para a metade da vida adulta


Imagine acordar um dia e não se reconhecer mais nas certezas que guiaram toda a sua vida; olhar para a sua casa, sua carreira, seus relacionamentos, seus papéis sociais e sentir que ela se tornou um lugar provisório. Onde moro se já não é naquilo que construi?


Na Psicologia Analítica, compreendemos que essa desorientação não é um erro de percurso. É uma natural transição para a segunda metade da vida adulta. Não se trata apenas de envelhecer sendo levado pelo tempo de Kronos, mas de uma profunda mudança na atitude psicológica. É um hiato, incerto e muitas vezes angustiante, pois o antigo senso de identidade já não serve mais e a nova atitude perante à vida ainda não nasceu. No limiar para a segunda metade da vida, Jung afirma que:

[É] necessário dar uma atenção toda especial às imagens do inconsciente coletivo; pois são elas que fornecem as pistas para a solução do problema dos contrários. Da elaboração consciente desses dados resulta a função transcendente, enquanto formação de uma concepção que integra os contrários, socorrendo-se dos arquétipos. (JUNG, 2014a, §184)

Nesse sentido, este artigo propõe caminhos de aproximação entre Hermes e Héstia como imagens arquetípicas que ajudam na integração psíquica no limiar da segunda metade da vida adulta.



Jung propôs um período cronológico para essa transição. No entanto, Hollis (1995, p. 24) atualiza essa observação, colocando que “a passagem do meio é mais uma experiência psicológica do que um evento cronológico”. É uma dança de Kronos e Kairós. Na passagem do tempo cronológico, vivenciam-se fatos que têm uma dimensão existencial profunda, como doenças graves ou viuvez ou proximidade da morte, levando o indivíduo a enfrentar questões até então evitadas, sobre sua real identidade para além dos papéis representados.


Na passagem de uma fase para a outra, o senso de identidade fica em suspenso. Stein (2007, p. 21) denomina esse estado de “limiar psicológico”. A sensação dominante é de um ego desabrigado, e de vulnerabilidade às questões emocionais. É um território fronteiriço, incerto, onde o antigo senso de identidade não morreu e a nova identidade não nasceu.

Jung coloca (2013a, § 784) que a transição é impulsionada por uma tensão interna em função do sacrifício de parte da personalidade na primeira fase da vida adulta, resultando em uma fissura na noção adquirida do ego. Essa tensão é o movimento do Si-mesmo, que busca a própria realização. Pode-se reconhecer esse movimento como o primeiro ato do limiar para a segunda metade da vida adulta.


O Si-mesmo conduz o ego a uma crise, com objetivo de realizar uma correção de curso. Mas para o novo emergir, é necessária uma série de tarefas psíquicas. Nesse sentido, ocorre uma regressão da energia psíquica para integração de conteúdos do inconsciente. Pode-se afirmar que este é o segundo ato da fase de transição: o movimento em direção ao inconsciente (HOLLIS, 1995).


Sobre as tarefas psíquicas do limar para a segunda fase da vida adulta, destacam-se os abalos à unilateralidade do ego que conduzem a um embate entre a persona e a sombra e o encontro com o inconsciente como um oposto contrassexual, como a anima e o animus.

Como descrito por Hollis (Cf. 1995, p. 37), se a transição para a segunda metade da vida ocorrer, o eixo do ego se desloca para o Si-mesmo, em contrapartida à fase anterior, que era em direção ao mundo. É o terceiro ato da fase de transição, o estabelecimento da consciência do Si-mesmo, da consciência da alma.


O resultado desejado da transição para a segunda etapa da vida adulta é, um ego flexível e estruturante, em constante diálogo com o inconsciente, permitindo acessar dimensões desconhecidas e continuar o processo de individuação. É o diálogo contínuo entre o ego e a alma.


Como proposto por Stein (2007, p. 163), na segunda etapa da vida adulta é mantida uma “dialética vigorosa entre a estrutura e a vivência liminar”. Quando a transição ocorre, retorna uma sensação de estabilidade psicológica, assentada na certeza da travessia como realidade e necessidade futura.

 

Os mitos de Hermes e Héstia como parceiros de travessia para a segunda metade da vida adulta

 

Tradicionalmente, na antiga Grécia, em frente à porta da casa era erguido um pilar representando Hermes, e no interior da casa existia um braseiro circular, que simbolizava Héstia. Hermes é o protetor da porta e o guia no mundo, enquanto Héstia representa um lugar aonde regressar. Estes dois símbolos estão relacionados, mas separados.


Em uma outra dimensão, Hermes e Héstia relacionam-se por meio da imagem do fogo sagrado. Hermes é o espírito alquímico Mercurius, a essência do fogo que acende o centro, que, por sua vez, acende Héstia (Cf. BOLEN, 2021, p. 157-8).


Antunes apresenta uma tradução do Hino Homérico à Hestia, com as divindades sendo representadas juntas, supervisionando a travessia dos limiares:

 

Já quanto a ti, Argicida, rebento de Zeus e de Maia, Núncio dos deuses, do cetro dourado, doador de benesses Sê favorável e ajuda-nos com a querida e augusta Vinde habitar esta casa bonita com mente amistosa Juntos, pois vós conheceis as ações elevadas dos homens Sobre esta terra, a quem vós ajudais com saber e vigor Salve, nascida de Crono e tu, Hermes do cetro dourado! Ora de vós eu irei me lembrar e de uma outra canção. (ANTUNES, 2015, p. 20)

 

Hermes e Héstia são invocados juntos, como deuses que compartilham os lugares de convivência dos seres humanos. Hermes presente no espaço público, transitando por muitos lugares e estabelecendo contato com os outros, e Héstia como a força do centro, do espaço sagrado da intimidade.


Ambos são companheiros de jornada, demarcando os limiares, Hermes do mundo externo e Héstia do mundo interno. Hermes e Héstia formam uma dualidade complementar, são deuses dos limiares nos momentos de transição. Estão presentes em momentos de desorientação e possível abertura para que mensagens do inconsciente cheguem à consciência.

 

A dialética de estrutura e senso de travessia: o encontro simbólico com Hermes e Héstia na segunda metade da fase adulta

 

A improvável relação entre esses deuses é invocada nas fontes primárias da mitologia grega. As histórias de Hermes, o deus das viagens, da comunicação, da astúcia, estão entrelaçadas com a guardiã da lareira, Héstia. São deuses opostos e complementares. Podem ser considerados partes de um mesmo todo.


De um lado, Hermes que está sempre em movimento, correndo contra o tempo para facilitar a aventura dos heróis do Olimpo; do outro, Héstia, que está designada para um único lugar, o centro da casa, como símbolo de permanência e centralidade. Enquanto Hermes sugere urgência, ação direcionada ao futuro e transgride desde o início; Héstia remete à resistência, à continuidade e à permanência dentro dos limites.


Hermes e Héstia podem ser considerados uma dualidade arquetípica das situações limítrofes dos lugares de convivência dos seres humanos. Ambos são companheiros de jornada da interna. Sob à ótica da transição para a segunda metade da vida, eles nos revelam que o ego se depara com uma grande incerteza – essa incerteza é o próprio Si-mesmo se manifestando por Hermes com o seu chamado disruptivo que nos arranca das antigas identificações e nos guia pelo inconsciente, enquanto Héstia nos oferece uma chama central e silenciosa, acolhidora e integradora. Como um peão de criança, a sensação de rodar e rodar faz o ego julgar-se perdido, sem notar que agora, é Hermes e Héstia, por meio do Si-mesmo, que ditam o caminho.


O livro No meio da vida, de Murray Stein, explora a influência de Hermes na jornada rumo à segunda metade da vida adulta. Este artigo amplia essa reflexão, ao introduzir Héstia como um contraponto a Hermes.


Héstia simboliza o centro da vida interior, que não só incita o início da jornada, mas também representa o ponto de chegada na transição para a segunda fase da vida adulta. Ela também personifica a força do desejo de experimentar a integridade e a plenitude. Por outro lado, Hermes atua como guia na travessia pelo desconhecido, guiando através do confronto com os conteúdos do inconsciente. Ele conduz à esfera de Héstia, e na integração do masculino e feminino chega-se ao reino da alma.


Ampliando o simbolismo de uma casa, pode-se reconhecê-la como uma unidade. Nos sonhos, o mundo psíquico é frequentemente representado por uma casa. Além disso, a própria personalidade é sugerida na representação da casa. A casa pode ainda ser ampliada para representar um lar, com o adágio “lar é onde o coração está”, retratando um estado emocional de pertença, segurança e contentamento. Por último, amplia-se que o lar é o alvo de buscas espirituais e transformações psíquicas (Cf. MARTIN et al., 2012, p. 197).


Na primeira fase da vida adulta, pode-se usar a metáfora da construção da casa. É o momento de construir as bases de estruturação do ego. Nessa fase, acredita-se que as paredes da casa são inabaláveis, ou seja, que o ego é o centro da consciência. Mas uma casa que não é um lar, é um lugar provisório.


Na transição para a segunda fase da vida adulta, chega um momento que o indivíduo percebe, como diz Jung (2013b, §151), que “não somos senhores dentro de nossa própria casa”. Chega o momento de questionar se as paredes são inabaláveis e de realizar as tarefas psicológicas para tentar transformar a casa em lar. E, para isso, pode-se contar com Hermes e Héstia na transição para a segunda metade da vida.


O mito de Hermes sobre o roubo do rebanho de Apolo simboliza a busca do inconsciente por reconhecimento. De acordo com a Psicologia Analítica, as figuras de Hermes e Apolo representam imagens arquetípicas do conflito e do potencial diálogo entre o inconsciente e o consciente. É possível interpretar que, na primeira fase da vida adulta, há uma tentativa de domínio apolíneo, um deus solar associado à luz e às artes perfeitas. Suas características incluem moderação, busca pela verdade, ordem racional e pureza.


No mito do nascimento de Hermes, ele rouba o rebanho de Apolo durante a noite. Apolo, por sua vez, não consegue aceitar tal ato. Esse evento é o primeiro ato do movimento psíquico que se desenvolve no limiar da segunda metade da vida adulta. Representa a recusa em aceitar as transformações da alma, gerando uma ruptura nas identificações do ego e provocando profunda confusão psicológica.


Apolo não consegue recuperar o que foi perdido, pois Hermes já havia cozinhado o rebanho de Apolo, sacrificando-os aos deuses e reivindicando para si um lugar entre eles. Isso nos revela que a transição da meia-idade é irreversível. O ato de cozinhar as posses de Apolo é uma metáfora. Hermes pega a matéria bruta da primeira metade da vida – nossos apegos literais, conquistas materiais, ambições racionais e puramente egóicas e a submete ao fogo. O rebanho deixa o mundo ctônico e denso para se tornar aeriforme, transformando-se em fumaça sagrada, em espírito. O que era literal precisa ser sacrificado para, enfim, tornar-se espiritual capaz de nutrir a alma.


O segundo ato do limiar se desenrola no encontro dos heróis na caverna de Hermes, onde o jovem ladrão repousa ao lado de sua mãe. Nesse ponto, faz-se uma pausa no mito para a inclusão de Héstia, Hermes retornando ao ler pode simbolizar a força atrativa do centro do mundo interior. Psicologicamente, podemos sugerir que aí ocorre uma regressão temporária dessa energia. Isso implica em regressar na memória e avançar em direção ao inconsciente. Nesse momento crucial, Hermes e Héstia despertam a alma, marcando o momento de confronto e integração dos conteúdos inconscientes.


O indivíduo, então, sente a necessidade de buscar um significado profundo para a sua vida. A alma não pode ser contida na passagem para a segunda metade da vida adulta. Assim como Hermes, a alma demanda atenção e reconhecimento. E, semelhante a Héstia, a jornada precisa ser ancorada no centro do mundo interior.


No final, a disputa entre Hermes e Apolo culmina numa troca de presentes, marcando o terceiro ato da transição para a segunda etapa da vida adulta. Apolo recebe a lira. Quando a alma se desperta na metade da vida, ela nos oferece presentes em troca do que nos roubou. Se esses presentes forem aceitos, eles se tornam marcos significativos na segunda metade da vida adulta, simbolizando a possibilidade de integração psíquica. Se forem rejeitados, tornam-se um pesadelo, gerando obstáculos e sintomas (Cf. STEIN, 2007, p. 16-7).


Um dos presentes é o Caduceu, o bastão dourado que Hermes recebe de Apolo em retribuição à lira. Na primeira metade da vida, o ego apolíneo tenta suprimir as contradições a todo custo para manter a ordem e a razão. Ao entregar o Caduceu a Hermes, podemos reconhecer que a psique não pode mais ser governada por uma luz unilateral apolínea. Apolo, nosso racionalismo, se encanta com a lira, a alma e Hermes, o mensageiro da totalidade, passa a guiar-nos. O Caduceu é o símbolo das antinomias, do paradoxos, da sapientia. Com duas serpentes entrelaçadas em torno de um eixo central, é a imagem arquetípica da união dos opostos. O próprio Caduceu, por ser circular e central, também remete-nos à dualidade Hermes e Héstia.


Ao avançar para a segunda metade da vida adulta, o indivíduo se depara com Hermes, que atua como guia e ladrão. Tal passagem pode ser evocada a partir de sentimentos de perda, tristeza ou um encontro com a morte. Ela representa um período de desorientação, onde as verdades que antes sustentavam a personalidade temporária e lhe proporcionavam sentido são postas em dúvida. Simultaneamente, elementos reprimidos da personalidade começam a emergir.


Hermes é o guia que conduz o indivíduo ao encontro com o submundo, questionando todas as estruturas previamente estabelecidas: o senso de identidade, a unilateralidade do ego e a identificação com a persona. O mundo conhecido se perde e o desconhecido se aproxima. É um estado liminar, ou seja, em suspensão. Como Stein (2007, p. 37) afirma: “Hermes representa um tipo de consciência que se sente completamente à vontade nos limites do tempo e do espaço”.


Paralelamente, Héstia está presente, carregando a força do centro na figura do braseiro em formato de mandala, como símbolo da integridade ou totalidade. A energia do ponto central manifesta uma força que impele o indivíduo a realizar a travessia apesar das incertezas. Jung (2014b, § 16) afirma “que o círculo protetor, o mandala, é o antídoto tradicional para os estados mentais caóticos”.


Receber os presentes da alma, possuir a lira, não são suficientes. É essencial, simbolicamente, trazer a lira para dentro de casa, como sugerem os atributos de Héstia, com o objetivo de contemplá-la e mantê-la perto do fogo, para assim cultivar uma relação constante com esse presente da alma. Em outras palavras, o roubo que resultou no presente de Hermes, unido ao fogo transmutador de Héstia pode dar origem ao terceiro elemento, a função transcendente, que possibilita a resolução de conflitos e a adoção de uma nova atitude.


A transição para a segunda metade da vida adulta é uma jornada para trazer alma para a vida consciente do indivíduo. Hermes e Héstia são mensageiros da alma. Se a travessia para a segunda metade da vida se completar, a casa transforma-se em lar. Como na Grécia Antiga, um lar que tem na entrada a imagem de Hermes, sugerindo a abertura para a energia hermética, ao mesmo tempo em que conta com a estrutura de proteção da energia acolhedora e central em forma de mandala do braseiro circular de Héstia.


A relação entre Hermes e Héstia fica ainda mais interessante quando observada pelas lentes dos elementos. Hermes, Mercúrio, é também um governante do elemento Ar (o espírito, o sopro – ruah) e Héstia, do Fogo (a transformação, o calor, a iluminação). Hermes é o ar que circula ao redor do fogo fixo de Héstia e a mantem acesa. A energia inquieta e mensageira de Hermes encontra seu verdadeiro propósito ao alimentar com oxigênio a chama central da nossa existência. O ar alimenta o fogo, e o fogo movimenta o ar. Juntos, eles impedem a cristalização da alma, mantendo-a viva, aquecida e em constante transmutação. Nosso peão de criança é feito de ar e fogo, de Hermes e Héstia, de pura alma em movimento.


Como recorda Stein (Cf. 2007, p. 163), a relação dialética entre estrutura e limiar é o resultado ideal da transição do meio da vida. Hermes e Héstia prometem que o senso de jornada e a vivência de acolhimento ancorada no centro do mundo interior são sempre possibilidades que podem ser integradas, mesmo que a travessia para a segunda etapa da vida adulta tenha sido concluída. A grande jornada de individuação continua, agora, na companhia da alma.


Referências

 

ANTUNES, Carlos Leonardo Bonturim. 26 Hinos Homéricos. In: Cadernos de Literatura em Tradução, [S. l.], n. 15, p. 13–24, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2359-5388.i15p13-24. Acesso em: 12 abr. 2025.

 

BOLEN, Jean Shinoda. As deusas em cada mulher. Os poderosos arquétipos nas vidas das mulheres. 1ª ed. Alfragide: Lua de Papel, 2021.

 

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. 23ª ed. Petropólis: Vozes, 2011, v. 1.

 

HOLLIS, James. A passagem do meio: da miséria ao significado da meia-idade. 1ª ed. São Paulo: Paulus, 1995.

 

HOPCKE, Robert. Guia para a Obra Completa de C. G. Jung. 3ª ed. Petropolis: Vozes, 2012.

 

JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.

 

______ A psicologia do inconsciente. 24ª ed. Petrópolis: Vozes, 2014a.

 

______ A vida simbólica. 7ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.

 

______ Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11ª ed. Petrópolis: Vozes, 2014b.

 

MARTIN, Kathleen. O livro dos símbolos. Reflexões sobre imagens arquetípicas. Koln: Taschen. 2012.

 

STEIN, Murray. No meio da vida. Uma perspectiva junguiana. 1ª ed. São Paulo: Paulus, 2007.

 
 
 

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