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A Generosidade Transbordante

Não é preciso mais comprovar que a dinâmica humana atual de relacionamentos está pautada na troca – no negócio. Quando se dá algo, espera-se que o outro recompense. Já vi com meus próprios olhos um amigo que acabou de receber presente de aniversário, procurando o presente nas lojas virtuais para saber seu valor monetário. Tudo isso, para sentir-se aliviado! Ele conseguirá dar um presente com o mesmo valor que recebeu!


Isso não para nos presentes concretos. Nós estamos acostumados com a ideia de que toda ação possui uma intenção por trás e a massa humana respira isso: "nenhum almoço é de graça". Mesmo aquele indivíduo que parece cheirar à generosidade, esconde em si, uma expectativa de ser recompensado.



O pai ou a mãe que se doam por anos e esperam que o filho entre na faculdade de medicina; o namorado ou a namorada que fingem ser perfeitos para que o parceiro ou a parceira também sejam; o trabalhador que fica horas e mais horas no escritório para ser promovido mas se faz de humilde para o chefe. Todos esses são impregnados de uma generosidade pautada no sacrifício com bases agostinianas.


Talvez esse seja um dos motivos pelos quais a humanidade tem se fascinado nas inteligências artificiais e nos robôs. Aparentemente, eles não pedem nada em troca, só se doam. Doam o que sabem, doam serviços simples, doam a presença que é possível. Apesar desse imbróglio todo possuir um preço muito alto: o planeta terra. Mas, isso não cabe neste artigo.


Uma generosidade pautada no sacrifício é como doar o vinho do próprio copo que está vazio. O vazio cobrará uma recompensa. E caso não haja, o sentimento de injustiça dominará quem doou. Seja mãe, pai, enamorados ou stakeholder, é impraticável manter-se em um estado de generosidade de sacrifício. A alma irá cobrar mais cedo ou mais tarde. Nomes para isso já existem: o burnout, por exemplo.


Você poderia me perguntar: mas, se a generosidade não depende de sacrifícios, ela depende do que? E isso também não teria uma sombra? Admito que entrar nesse tema é um tanto quando delicado, pois é algo raro nos dias atuais. Mas, escrevo como uma ode, como um agradecimento, aqueles que um dia puderam me tocar com uma generosidade não-sacrificial.


Eu presenciei esse tipo de generosidade em poucas indivíduos. E eles fizeram jús a frase "fazer o bem sem olhar a quem". A tal ponto que procurei por dias quais eram as intenções dessas pessoas e jamais encontrei. Como se eles tivessem me liberado, me libertado da troca. Como se eles falassem em meus ouvidos: "pegue isso e faça o que a sua alma lhe pedir".


Essa generosidade não-sacrificial já foi descrita por Nietzsche: é transbordante. É importante que o copo de vinho esteja cheio e transbordante. Diz o autor: "quando o nosso coração se agita, amplo e cheio, como o grande rio, bênção e perigo dos ribeirinhos, então assistis à origem da vossa virtude".


Assim, desvia-se da cosmovisão agostiniana e a exigência da recompensa não faz mais sentido algum, afinal o copo está cheio e transbordando novamente e novamente. Mas, aviso, isso é raro hoje em dia. Diferente do sacrifício, a generosidade transbordante demanda um certo déficit a quem faz a doação. Por isso, é difícil encontrá-la hoje: todos querem ganhar e ganhar! Jamais perder! A publicidade é mestre em usar essa tendência humana a seu favor: "compre agora e economize". Mas, aqui é um exemplo claro de que perder pode ser um ato criativo.


Poderíamos equiparar a generosidade transbordante com o ouro. "só como símbolo da mais alta virtude o ouro alcançou o mais alto valor. É como o ouro, reluzente, o olhar daquele que dá. O brilho do ouro firma a paz entre a lua e o sol" (F. Nietzsche). O autor ainda afirma que esse ouro é inútil para quem doa, mas brilha para quem recebe. Esse excerto é maravilhoso, pois, se houvesse utilidade ao se doar, já haveria aí uma intenção em se doar, caindo novamente na dinâmica da troca, do negócio.


Nietzsche alerta para o perigo. Um perigo que o próprio Zaratustra reconhece: de estar com as mãos cheias e não doar ou não ter ninguém para receber a doação. Essa doação transbordante confinada ao copo faz o copo trincar. Nas palavras da psicologia analítica, converte-se em sombra e retroage sobre o indivíduo. A sombra da generosidade transbordamte é ser mesquinho ou dolorosamente solitário. O primeiro caso encontramos nos experientes altos cargos da sociedade e o segundo caso em asilos mal cuidados.


A generosidade também não reside apenas na capacidade de acumular, mas na sabedoria de identificar o solo fértil e ser transbordante. Despejar ouro sobre quem não possui o "vaso" psíquico para recebê-lo não é virtude, é desperdício. Ou pior, uma violência disfarçada de bondade. Aquele que recebe sem estar preparado – e aqui voltamos à dinâmica da inveja – pode se sentir humilhado pela abundância do outro, transformando o ouro dadivoso em chumbo de ressentimento.


Como praticar a generosidade transbordante? Como trazer para a minha vida? São perguntas que somente quem a faz pode responder. Porém há um primeiro passo: conheça-te a ti mesmo, como diria o oráculo. Não podemos cair no superhomem de Nietzsche, que como já afirmou C. G. Jung, levou-o à inflação.


"Médico, ajuda-te a ti mesmo; assim, ajudas também o teu doente. Seja a melhor assistência do doente ver com os seus próprios olhos o que se cura a si mesmo. Há mil sendas que nunca foram calcadas, mil fontes de saúde e mil terras ocultas na vida. Ainda se não descobriram nem esgotaram o homem nem a terra dos homens" (F. Nietzsche).


Isto é, não é possível transbordar em tudo e todos, mas, é possível transbordar em momentos propícios e em quem está querendo receber. Conhecendo a si mesmo, o indivíduo evita cair inconscientemente na dinâmica da generosidade sacrificial e descobre onde, quando e em quem ele pode praticar a generosidade transbordante. Veja, a escolha do "em quem" transbordar não está ligada na identidade ou na posição social do indivíduo. Está vinculada à atitude dele de receber.


A verdadeira generosidade, aquela que escapa da lógica do mercado e do sacrifício agostiniano, é um ato de liberdade. Ela acontece quando o autoconhecimento está sendo trabalhado e não precisa mais cobrar juros emocionais para se sentir valorizado. É o "sim" dito à vida que é tão retumbante que precisa ser compartilhado, não para obter aplausos, mas porque a natureza da luz é iluminar com as sombras em seus lugares para os objetos tornarem visíveis.


Que possamos, então, buscar essa saúde interior que nos permite ser, vez ou outra, o sol do meio-dia de Zaratustra: doando sem empobrecer, amando sem negociar e, acima de tudo, permitindo que o nosso ouro circule. Pois o ouro que fica parado no fundo da alma, sem encontrar mãos dignas de recebê-lo, perde seu brilho e volta a ser pedra bruta, para não dizer escremento. O ouro no fundo do poço possui a mesma cor das fezes, vale lembrar. A generosidade transbordante é, em última análise, uma alquimia capaz de transformar a tendência individualista do ter na plenitude do ser.


Leonardo Torres, analista junguiano.















 
 
 

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