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A Individuação é para todos?

Antes de mais nada, preciso informar ao leitor que o termo Individuação é aquilo que chamamos de "fenômeno-limite" (Jung, A Natureza da Psique). O "fenômeno-limite" é como se fosse uma utopia. Mas, neste caso, não pense que utopia é expectativa. É no sentido de ser quase impossível um indivíduo alcançá-la e o que mais vale é o caminho, o processo, como queira chamar.


Para responder a pergunta sob o meu ponto de vista, é mais do que necessário olhar para ângulos que se complementam: a Individuação é um empuxo natural e inevitável da vida, porém, como uma realização consciente, exige muita dedicação e abnegação do egoísmo.


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Para ampliar o primeiro ponto, a Individuação deve ser entendida não meramente como um ideal da consciência, mas um fenômeno psíquico inerente à consciência e o inconsciente e, de certa forma, um objetivo inevitável da vida psíquica (alma). Ela é a realização da totalidade e individualidade de um ser, muitas vezes manifestando-se com ou mesmo contra a sua própria vontade (Jung, Resposta a Jó).


Aqui já cabe a seguinte ressalva: para chamar de Individuação demanda-se a realização da totalidade e da individualidade. A realização da individualidade sem a realização da totalidade é egoísmo ou individualização; a realização da totalidade sem a realização da individualidade já é mais complexa, pode ser levar o indivíduo tanto para a psicose como para uma vida irrefletida, inconsciente e muitas vezes deixando o mal à solta. E nada disso é Individuação.


Retomando, enquanto uma tendência humana, pode-se considerar a Individuação arquetípica pois repete ao longo das culturas e dos tempos o seguinte padrão: o sentido e a meta de ser quem se visando a realização de uma personalidade originária, presente no germe psíquico embrionário (Jung, Psicologia do Inconsciente). Esse germe psíquico embrionário foi chamado por diversas culturas de Daimon, Gênio, Deus, Padrinho, Madrinha, e por aí vai. (Hillman, O Código da Alma).


O tom arquetípico fica evidente em sonhos que aparecem símbolos que expressam a totalidade – formas quaternárias e círculos, que podem representar a integridade e a completude. Símbolos como esse levam o ego a se aproximar, mesmo que minimamente do Si-mesmo, a totalidade da esfera psíquica, uma personalidade que engloba tanto a consciência quanto o inconsciente (Jung, Resposta a Jó e Tipos Psicológicos).


A vida, em seu fluxo natural, tenderia para esta totalidade, de modo que "cada vida é a realização de uma totalidade, isto é, de um Si-mesmo" (Jung, Psicologia e Alquimia). Porém, Jung também afirma ser necessária a conscientização e realização ativa na realização da totalidade – perceba aqui tanto individualidade quanto totalidade.


Jung, em O Desenvolvimento da Personalidade, aponta que a realização da individualidade bem como da totalidade é um "carisma e ao mesmo tempo uma maldição". Por ser impossível que a individuação se processe mediante uma intenção unicamente consciente, já que a unilateralidade da intenção excluiria a totalidade dos fatores psíquicos, o processo de individuação, no sentido de se tornar consciente, é um processo de desenvolvimento vinculado a irracionalidade e aquilo que o eu (ego) não gostaria de ter que lidar. Resumindo, na Individuação são poucos os unicórnios cor-de-rosa vistos e muitos os demônios do mal encontrados.


Basta olhar para a teoria: o ego precisa se diferenciar da Persona (a máscara social) e reconhecer a Sombra – o mal que habita em si. Depois, ir ao encontro da Anima e do Animus para que o processo avance e a espiritualidade nasça. A individuação requer que o indivíduo seja capaz de "dizer um 'sim' consciente ao poder da destinação interior" (Jung, O Desenvolvimento da Personalidade). Não confundir a destinação interior com desejos do ego, isso pode ser catastrófico!


A unilateralização exacerbada de um indivíduo vivendo em prol dos desejos do ego é catastrófico pois tende àquilo que Jung, em O Segredo da Flor de Ouro, denomina de monoteísmo da consciência – prefiro eu: "monoteísmo do ego". O indivíduo reconhece somente ele e nada mais do que os desejos dele e se lança para a vida buscando saciar esses desejos. O problema não é o desejo em si, mas o vínculo que o indivíduo estabelece com o próprio desejo – um vínculo de co-dependência.


Para o indivíduo, parece fatal caso o vínculo enfraqueça, pois, o indivíduo só se reconhece enquanto ser neste vínculo de co-dependência entre ele e seu desejo. Tudo isso cria uma grande inflação: "eu preciso ser rico"; "eu preciso casar com aquela pessoa"; "eu tenho que emagrecer e atingir aquele corpo"! A inflação também ocorre com conteúdos aparentemente humildes e negativos: "Meu desejo é não desejar"; "eu tenho que ser simplista"; "eu preciso ajudar o próximo"; "eu não sou nada nessa vida"; "eu não tenho mais ego"! Tudo isso não tem nada a ver com Individuação!


Existe outro problema ainda mais sério que na minha visão impede a Individuação: a decadência social e política que gera desigualdade. A desigualdade é um fator que age contra o processo de Individuação. O Processo de Individuação demanda de tempo, de reflexão, de elaboração; demanda sustentar a angústia acerca das reflexões que emergem, etc.. Aquele indivíduo que ainda sente a angústia de não saber o que vai comer no dia ou se estará seguro e aquecido durante a noite, isto é, o indivíduo que diariamente ainda busca a própria sobrevivência, ainda não consegue possuir o tempo reflexivo necessário para conseguir conciliar o individual e o coletivo, portanto, não terá a oportunidade de cair em uma angústia existencial.


Essa angústia da sobrevivência, aliás, não é uma abstração filosófica; é a realidade estatística e concreta de uma parcela crescente da população. Dados de fontes como o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua e a Agência Brasil, baseados em registros oficiais, mostram um quadro desolador. No final de 2024 e início de 2025, o Brasil registrou um número alarmante de quase 328 mil pessoas vivendo em situação de rua.


Como se pode, então, falar em "dizer um 'sim' consciente ao poder da destinação interior" ou em "confrontar a Anima ou o Animus" para alguém cuja energia psíquica está inteiramente mobilizada para a tarefa imediata de garantir a própria sobrevivência? A estrutura defensiva do ego, nesse caso, não tem o luxo de se voltar para os complexos internos; ela está em estado de alerta máximo, voltada para a sobrevivência física no mundo externo. Os complexos são os motores da sobrevivência e saem sem qualquer mediação.


No entanto, seria um erro fundamental declarar que o processo de Individuação é, em si mesmo, elitista. Não é. A Individuação, como "empuxo natural" e "germe psíquico embrionário", é o potencial arquetípico mais democrático que existe. O Daimon ou "gênio" da alma não escolhe nascer apenas em berços privilegiados. A psique do morador de rua, do operário exausto ou da mãe solo sobrecarregada também produz símbolos de totalidade.


Seus sonhos também podem conter mandalas; seu inconsciente também busca compensar a unilateralidade da consciência. A potencialidade da Individuação é um direito de nascença de todo ser humano, inerente à própria vida psíquica. O problema não está na essência da Individuação, mas na conscientização e realização dessa potencialidade.


O problema é que a Individuação inserida em um sistema que é, este sim, profundamente elitista e desigual, acaba ganhando esse formato elitista. Melhoro: o sistema não torna a Individuação elitista; ele impede ativamente a sua realização consciente para a vasta maioria, criando barreiras materiais, psíquicas e educacionais. Espero que o leitor não tome isso como uma defesa à teoria, mas como uma crítica ao status quo.


A Individuação como processo consciente e inconsciente, como a jornada heróica de realização do Si-mesmo pelo ego, torna-se, de fato, um privilégio de classe na contemporaneidade. Não porque a alma dos pobres seja menos complexa ou menos divina, mas porque o sistema lhes nega as condições mínimas de segurança, tempo e educação para que possam "dizer sim" à sua destinação interior. A verdadeira crítica, então, não deve ser dirigida ao conceito de Individuação, mas à estrutura social que ergue um muro entre o indivíduo e sua alma.


Este também é o papel do junguiano: transcender a neutralidade apolítica frequentemente (e erroneamente) associada ao consultório e descer na poltrona para realizar uma crítica contundente ao sistema. Se a Individuação é a realização da totalidade, e essa totalidade inclui a relação consciente do indivíduo com o mundo e com o outro, seria uma traição ao próprio conceito acreditar que ela se completa apenas no consultório, de costas para a estrutura social que nega a humanidade básica a milhões.


O junguiano, mais do que qualquer outro, deveria ser aquele que defende o "germe psíquico embrionário" e a "destinação interior" em cada ser humano e não apenas naquele que pode pagar pelas sessões de análise. O junguiano deve acreditar na mudança do sistema e dar passos para que isso aconteça. Não por uma questão de adesão a uma ideologia política superficial, mas por uma profunda fidelidade à alma.


É nosso campo também reconhecer que se um sistema impede ativamente o processo de Individuação, esse sistema está perpetuando um estado de neurose coletiva, inflação e unilateralidade. Lutar por moradia digna, por segurança alimentar, por educação universal e pelo fim da desigualdade extrema é lutar pelas pré-condições da Individuação. Oportunizar o processo de Individuação em um sentido amplo significa, primeiro, oportunizar a dignidade humana básica. O junguiano deve, assim, ser um agente que trabalha não apenas para curar a alma individual, mas para denunciar e ajudar a transformar a estrutura que adoece e impede a alma coletiva.


Leonardo Torres, analista junguiano.









 
 
 

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