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C. G. Jung e o Nazismo

C. G. Jung não era Nazista



Trechos de C. G. Jung, fundador da psicologia analítica, no livro Aspectos do Drama Contemporâneo


O nazismo constitui um desses fenômenos psicológicos de massa, uma dessas irrupções do inconsciente coletivo às quais me referia já há mais de vinte anos. As forças propulsoras do movimento psicológico de massa são de natureza arquetípica. Todo arquétipo traz em si o bom e o mau, o que há de mais baixo e de mais elevado, o que explica seus efeitos tão contraditórios. Assim nunca se pode prever se agirá de forma positiva ou negativa. Se o meu comportamento naquela época foi o de quem aguarda o desenrolar dos acontecimentos é porque tinha que agir em concordância com minha atitude médica diante de casos semelhantes: não julgar precipitadamente, não pretender saber melhor a priori e sim “dar uma chance”, segundo a expressão inglesa. Pois, o objetivo do médico não é atacar a consciência perturbada, mas fortalecer a sua resistência através da compreensão, a fim de que o indivíduo não seja arrastado pelo mal que todo arquétipo abriga e, desse modo, para a sua própria desintegração. A meta terapêutica é permitir a realização do que o arquétipo possui de bom, válido e vivo, integrando-o à consciência e impedindo o máximo possível os aspectos nocivos. Pertence à tarefa do médico um otimismo que o ajude, mesmo nas piores circunstâncias, a tentar salvar o que talvez possa se salvar. A falta aparente ou real de perspectiva de solução não deve impressioná-lo, mesmo em circunstâncias que envolvam perigo. Também não podemos nos esquecer de que, até a era nazista, a Alemanha foi um dos países mais distintos dentre as nações civilizadas da terra e também a base para os laços de sangue, língua e amizade. Tudo faria que estivesse a meu alcance para não romper os laços culturais, pois a cultura constitui, em minha opinião, o único meio contra o perigo devastador da massificação.


No tocante à “psicopatia alemã” tive e mantenho a convicção de que o nazismo constituiu uma espécie de psicose de massa, à qual já havia me referido há bastante tempo. Só consigo explicar o que houve na Alemanha como um estado mental anormal. Eu estaria propenso a aceitar a tese, se alguém conseguisse prová-la, de que a fenomenologia do nazismo é própria do estado normal da psique. Na Itália, a psicose de massa se deu de forma mais amena. À Rússia pode-se atribuir o baixo nível da educação de seu povo antes da Revolução. Mas a Alemanha, considerada um dos países de cultura mais elevada, superou em gênero e grau tudo o que já houve. Em minha opinião, a nação alemã sofre de profunda baixeza, como contrapeso ao seu espírito elevado. Chama-se esse estado, na psicopatologia, de dissociação. Uma dissociação habitual constitui uma das características de disposição psicopática. As particularizações decorrentes dessa constatação geral podem ser encontradas pelo leitor no artigo Depois da catástrofe.


Numa completa inversão desta meta do desenvolvimento espiritual a que aspira não só a natureza, mas também prefigura a doutrina cristã, o nacional-socialismo destruiu a autonomia moral do homem e erigiu o absurdo totalitarismo do Estado.


O Ocidente também sofreu um grande dano psicológico que se fez notar já na época do nacional-socialismo na Alemanha: nas sombras pode-se apenas tatear. Hoje, esse dano já se localiza além dos limites políticos.


O que é o nacional-socialismo a não ser uma embriaguez monstruosa que precipitou a Europa numa catástrofe indescritível?


Talvez se possa designar esse fenômeno geral de “possessão”. Esta expressão supõe, em primeiro lugar, um “possuidor” e um “possuído”. Desde que não se queira deificar Hitler, o que aliás já ocorreu, resta-nos apenas Wotan, o “possuidor” dos homens. Seu primo Dioniso compartilha essa mesma característica, embora ele a tenha estendido também às mulheres. As mênades formaram uma S.A. (“milícia parda”) feminina que, a julgar pelo relato mítico, não era nada inofensiva. Wotan limita-se aos homens-feras, empregados como guardas pessoais dos reis míticos.


Até um santo deveria orar pelas almas de Hitler e Himmler, da Gestapo e da SS a fim de reparar a vergonha que sofria em sua própria alma. A visão do mal acende o mal na própria alma. Isso é inevitável. Não é só a vítima aquele que sofre o mal. Também o assassino e todo o âmbito humano que rodeia o crime são por ele maculados. Algo irrompe do sinistro abismo do mundo, envenenando o ar e contaminando a água cristalina com um gosto repugnante de sangue.


O diagnóstico mais preciso de Hitler seria o de pseudologia phantastica, ou seja, uma forma de histeria que se caracteriza pela capacidade especial em acreditar nas próprias mentiras. Tais pessoas têm, geralmente, durante algum tempo, um êxito avassalador sendo por isso perigosas para a sociedade. Nada é mais convincente do que se acreditar que a própria mentira, a própria maldade ou má intenção sejam boas; em todo caso, é bem mais convincente do que um homem simplesmente bom e sua boa ação ou de um homem mau e sua má ação. O povo alemão não se teria deixado convencer (a não ser algumas poucas exceções inexplicáveis) pelos gestos de Hitler tão ridículos e patéticos, ou seja, tão manifestamente histéricos e pelos seus discursos prolixos, se a sua figura, que a meus olhos parecia um espantalho psíquico (com um braço estendido à semelhança de um cabo de vassoura), não refletisse a histeria geral dos alemães.


Hitler foi o expoente da “nova ordem” e essa constitui a verdadeira razão capaz de explicar por que todo alemão se deixou envolver por esse homem. Os alemães almejavam a ordem, mas cometeram o erro fatídico de escolher para seu Führer a principal vítima da desordem e da ambição descontrolada. A atitude individual do alemão permaneceu imutável: do mesmo modo que cobiçava o poder, ressentia-se de ordem. Como o mundo não os compreendia, Hitler simbolizava ainda mais algo em cada indivíduo. Era a corporificação mais surpreendente de todas as inferioridades humanas. Era uma personalidade inteiramente psicopática, incapaz, desajustada e irresponsável, cheia de fantasias ocas e pueris, embora dotada do faro excepcional de um rato e marcada por uma sina. Ele representava as sombras e a parte inferior de toda personalidade num grau extremo, o que constituiu mais uma razão para que as pessoas se deixassem envolver.


O que deveriam ter feito os alemães? Todo alemão poderia ter reconhecido em Hitler as suas próprias sombras e percebido o terrível perigo que representava. Cada um de nós poderia ter tomado consciência de sua própria sombra e ter-se encontrado com ela. Como então esperar que os alemães tivessem compreendido tudo isso se ninguém no mundo consegue compreender uma verdade tão simples? O mundo jamais alcançará um estado de ordem sem reconhecer essa verdade.


Respostas ao “Mishmar” sobre Adolf Hitler


Eugen Kolb, correspondente em Genebra de Mishmar (The Daily Guardian) de Tel Aviv, escreveu a Jung, em 4 de setembro de 1945, pedindo-lhe que respondesse a algumas perguntas. Jung respondeu a 14 de setembro. O texto foi publicado apenas em 15 de novembro de 1974, quando as cartas de Kolbe Jung apareceram no Mishmar (em hebraico) sob o título “O que disse Jung ao correspondente de Mishmar, na Suíça, há 29 anos?” A publicação deveu-se a uma pergunta do editor da Obra Completa de Jung em inglês, se o falecido Eugen Kolb tinha publicado a carta de Jung.


Como psiquiatra, qual o seu julgamento sobre Hitler como “paciente”?


Em minha opinião, Hitler é antes de tudo um histérico (já fora assim oficialmente diagnosticado na guerra mundial de 1914-1918). Caracteriza-se especialmente por uma subforma da histeria: pseudologia phantastica, em outras palavras, um “mentiroso patológico”. Mesmo que estes indivíduos não comecem logo como enganadores, são uma espécie de idealistas, sempre apaixonados por suas ideias e que antecipam seus objetivos, considerando suas fantasias de desejos como facilmente realizáveis ou já realizadas, e acreditando eles mesmos em suas óbvias mentiras. (Quisling é um caso semelhante, conforme demonstrou seu processo.) Para realizar suas fantasias de desejos não há meio ruim, pois acreditam que com ele podem alcançar seu amado objetivo. “Acreditam” que estão agindo para o bem da humanidade, ou ao menos para o bem da nação ou de seu partido, e jamais percebem que seu objetivo é sempre egoísta. Estes casos dificilmente são considerados doentios pelo leigo, porque esta atitude é uma falha humana muito comum. Pelo fato de apenas o convencido convencer diretamente a outro (por contágio psíquico), possui ele, via de regra, influência devastadora sobre seu ambiente. Quase todos caem em sua rede.


Como pôde este “psicopata” influenciar nações inteiras?


Sendo seu sistema maníaco de desejos um sistema político-social e correspondendo ele às ideias preferidas da maioria, surge uma epidemia psíquica que aumenta qual avalanche. A maioria do povo alemão estava descontente, alimentava sentimentos de vingança e ressentimento, provindos em parte de seu complexo de inferioridade nacional, e identificava-se com os oprimidos. (Daí seu ódio e inveja dos judeus que lhe haviam tomado a ideia de povo “eleito”.)


O senhor também considera psicopatas seus contemporâneos que executaram os seus planos?


Uma sugestão só funciona onde já existe um desejo secreto de realizá-la. Hitler conseguiu desse modo atuar sobre todos os que compensavam seu complexo de inferioridade através de aspirações sociais e desejos secretos de poder. Por isso cercou-se de um exército de desajustados, psicopatas e criminosos, sendo ele mesmo um deles. Mas atingiu também o inconsciente das pessoas normais que sempre pareceram totalmente inocentes e corretas. A maioria das pessoas normais (sem considerar os dez por cento aproximadamente de pessoas abaixo da inteligência mediana) é ridiculamente inconsciente e ingênua e é por isso vulnerável a qualquer sugestão oportuna. Uma vez que a falta de adaptação é uma doença, também podemos chamar de doente uma nação. Mas trata-se de psicologia normal das massas, um fenômeno gregário como o pânico. Quanto mais as pessoas são reunidas aos montes, mais estúpido e sugestionável se torna o indivíduo.


Se isto é assim, em que consiste a cura?


Em educar para a plena consciência. Impedir a formação social gregária como proletarização e massificação. Nada de sistema de partido único. Nada de ditadura. Autonomia comunal.







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1 Comment


Victor Silva
Victor Silva
Jan 19, 2023

O texto apenas mostra como é fácil patologizar os fenômenos políticos e retirá-los do seu próprio âmbito de discussão. Ou seja, é uma análise despolitizante porque encara o algoz e a massa manobrada por ele como meras vítimas de suas próprias patologias. Restaria então "curá-las". Além disso, generaliza ao colocar no mesmo saco o nazismo alemão, o fascismo italiano e o socialismo soviético. Isso era algo muito comum na época, pois os teóricos demonizavam as massas e os movimentos populares. No momento atual isso já não cabe mais, pois se provou ineficaz, sem efeito prático, e abriu brecha para ascensão de tantos outros regimes fascistas.

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