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A Importância do Ouvir na Psicologia

Se exagerássemos um pouco, poderíamos afirmar que a audição não existe. O funcionamento do ouvido é algo interessantíssimo. O tímpano, um tambor, recebe a vibração (o som), o que reflete em três ossículos, denominados de estribo, bigorna e martelo, que acabam ampliando o som em até 22 vezes. Daí, essas vibrações ampliadas alcançam a cóclea, o ouvido interno, que estimulam células nervosas que levam até o cérebro. Então, interpretamos.





A verdade é que apesar de percebermos como um som, o que captamos são vibrações. Isto é, nesta fantasia que trago hoje, a audição nada mais é do que o sentido do tato. Ninguém melhor do que Ludwig von Beethoven para exemplificar. Sem delongas, aqui ainda cabem aquelas famosas frases que falamos e escutamos "o que você me disse, me tocou muito"; "essa música é tocante"; entre outras.


Ouvir é ser tocado. E falar é tocar. Por isso, palavras doem, acalentam, estimulam, instigam.

Para os amantes, talvez seja por isso também que as preliminares deveriam começar antes mesmo do toque na pele. Vale refletir. Fazer amor começa no pé do ouvido. No pé do ouvido também contam-se segredos, isto é, aquilo que quer ser secretado. Seria, então, um abraço, um gesto de empatia, uma tentativa e uma busca por compreensão, quando falamos ou escutamos tal cochichar?


Para a psicoterapia não é diferente. Por isso, antes de tudo o analista deve estar com os ouvidos abertos. Isso significa ser tocado e ficar tocado pelo cliente. C. G. Jung já nos disse que o verdadeiro analista está dentro do processo analítico. No entanto, sem interesses secundários, ou seja, reagir após a escuta buscando um ímpeto de fazer o cliente melhorar ou tirá-lo de um estado angustiante ou qualquer outro interesse reativo que possa surgir ao longo do processo. Na realidade, quem sente esse ímpeto resolutivo e reativo, não reconhece a priori o valor do ouvir.


Na minha prática clínica, compartilho e devolvo para o cliente como eu fui tocado pela fala. O que se passou na minha fantasia ao atravessar a narrativa e a fala do próprio cliente. O que gera por vezes um espelhamento e reverberações e, então, mais reflexões a partir do cliente; e por outras confrontos, discordâncias e dissonâncias, levando também às reflexões.


Ah! O ser humano! Um ser tocante!



Leonardo Torres, analista junguiano.






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