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Saindo de padrões repetitivos: entre o querer e a vontade

Atualizado: 14 de fev.

"Queria parar de fumar"; "queria não ter esse comportamento"; "não queria mais me apaixonar por pessoas tóxicas"; "queria mudar minha vida"; "queria ter um sentido para vida". Essas são expressões presentes nas clínicas de psicologia que devem ser tratadas profundamente.



Diante das incertezas da vida, quando o indivíduo está imerso em angústia e dúvidas, é desafiador tomar decisões: "quero e não quero" é uma das grandes angústias vividas pelos seres humanos. Trata-se do conhecido paradoxo retratado no antigo meme "credo, que delícia!".

Evidente que nada se resolve de um dia para o outro, mas há um aspecto esquecido há muito tempo na contemporaneidade que precisa ser realçado.

Hoje o ego acredita que tudo é de posse dele – as emoções, os desejos, as angústias, tudo é posse exclusiva dele, não há partilha interna, pois, aparentemente, só existe o ego na psique. Isso é um erro. A psique é múltipla, nada é do ego. O ego é só mais um dentre todos. Já explorei este tema em dois artigos anteriores, caso tenha interesse em aprofundar-se, acesse aqui e aqui.


Isso nos leva a questionar: "se nada pertence ao ego, quem em meu ser quer isso?". É provável que seu terapeuta já tenha feito essa pergunta. O indivíduo fica preso em um padrão repetitivo devido à querência, ao anseio (sim você pode substituir por ansiedade) ou desejo de uma entidade que não é o ego.

Mas quem seriam esses outros? São aqueles que a psicologia analítica nomeia como "complexos".

Surge aqui uma antinomia ou um paradoxo - há duas entidades residindo em um único corpo: uma deseja, a outra não quer o desejo. Isso resulta em uma cisão da personalidade, fenômeno conhecido como "neurose". A neurose, por sua vez, afeta desde a esfera psicológica até o corpo físico, levando o indivíduo a diversas patologias psicossomáticas.




É a famosa brincadeira do cabo de guerra, de um lado o ego puxa do outro o complexo. Basicamente, essa imagem é o ego puxa para não resistir aos desejos e às querências do complexo. Aqui já dou o spoiler que nenhum dos dois deve ganhar. O cabo de guerra deve parar e surgir uma negociação. Afinal, o complexo também quer viver.


Outra imagem que se pode trazer, mas não é muito conhecida, é a armadilha de dedo chinês. Pesquise, vale à pena. Uma armadilha de dedo chinesa (também conhecida como quebra-cabeça de dedo chinês, manguito de polegar chinês, algemas chinesas e variantes semelhantes) é um brinquedo de mordaça usado para fazer uma piada em crianças e adultos desavisados. A armadilha para os dedos é um quebra-cabeça simples que prende os dedos da vítima (muitas vezes os dedos indicadores) em ambas as extremidades de um pequeno cilindro tecido de bambu. A reação inicial da vítima é muitas vezes puxar os dedos para fora, mas isso só aperta a armadilha. A maneira de escapar da armadilha é empurrar as extremidades em direção ao meio, o que amplia as aberturas e libera os dedos.

Enquanto o indivíduo permanecer neste cabo de guerra ou na armadilha de dedo chinês, o complexo agirá livre.

Ainda mais na atualidade, quando o indivíduo faz uma confusão entre a querência, o anseio ou o desejo do complexo e o que ele tem vontade de fazer, pode-se diagnosticar que o seu ego está identificado com o complexo. Isso pode acontecer até mesmo quando o indivíduo tem conhecimento que o seu comportamento é nocivo, mas não consegue vencer, pois o complexo parece mais poderoso.


Este outro ser no indivíduo, o complexo, é compulsivo, infantil e cheio de verdades. O ego que o escuta piamente torna-se trêmulo e se submete aos comportamentos compulsivos. O ego esquece que é por essa ferida trêmula que ele pode confrontar o complexo, essa tremedeira chama-se dúvida. Quando o indivíduo começa a duvidar daquelas certezas que o complexo lhe traz, o ego começa a achar ouro. Para isso, o ego deve parar com o cabo de guerra ou aproximar-se do complexo para compreendê-lo.


O ouro aqui pontuado não é literal – é aquilo que a psicologia analítica denomina de energia psíquica. A palavra "energia" vem do grego antigo. É derivada de "energeia", que significa "atividade" ou "operação". Em termos mais específicos, é derivada das palavras "en", que significa "em" e "ergon", que significa "trabalho". Portanto, o sentido original da palavra "energia" é algo como "em trabalho" ou "em ação".


Ou seja, enquanto o ego estiver em máxima tensão com o complexo, o complexo está em ação, realizando-se. Caso o ego, entre em ação e comece a negociar com o complexo para compreendê-lo o ego também ganha energia psíquica.

O que está em questão aqui é a quantidade de energia psíquica disponível para o ego e para o complexo. Isso fica evidente quando o cliente chega na sessão e ele se queixa sempre de estar cansado.

Quando o ego negocia, ele ganha energia psíquica. Enquanto o ego não negocia, pouco lhe resta de energia. Por isso, Jung escolheu a palavra "vontade" como "energia psíquica disponível na consciência". É a energia psíquica disponível que nos permite tomar decisões, mover-nos em direção a objetivos específicos. A vontade é uma força motivadora, uma centelha de iniciativa, que provém da percepção consciente de nossas necessidades e desejos, isto é, da reflexão acerca dos complexos.


Enquanto o querer, o anseio e os desejos derivam dos complexos, a vontade para não ser submisso a eles provém da negociação do ego. O "querer" é, portanto, um desejo inconsciente que surge desses complexos, uma força que nos empurra em direção a algo, independentemente de estarmos conscientes disso ou não. O "querer" pode ser um desejo profundo, uma compulsão ou uma atração inexplicável.


Mas isso não é tarefa fácil, não é como muitos pregam na internet: "basta ter vontade". Precisa ter muita coragem e determinação para olhar de frente para os próprios complexos. E ter compreensão e compaixão para escutá-los.

Há momentos em que o indivíduo deve usar nossa vontade para superar ou resistir aos impulsos do querer inconsciente. Isso é especialmente verdade quando os desafios da vida exigem aquilo que não se "quer". Kant já afirmou, o indivíduo somente é livre quando faz o que não quer. Essa também é a ideia de livre-arbítrio para C. G. Jung – escolher, apesar de toda a sedução do inconsciente.


Se o indivíduo distinguir a vontade e do querer pode ser útil para entender a dinâmica da motivação humana e a complexidade dos desejos e impulso. Reconhecer e trabalhar com essas forças opostas pode ajudar a viver de maneira mais autêntica, permitindo gerenciar os conflitos internos e navegar com mais habilidade pelas ondas da vida.


Distinguir entre vontade e querer, o indivíduo aprende a identificar melhor as influências conscientes e inconscientes , e assim fazer escolhas mais conscientes. É um trabalho árduo e constante. Conforme Jung disse uma vez, "Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, acorda". Ao enfrentar nossos desafios com vontade e conscientização, nós não apenas nos adaptamos, mas também despertamos para o nosso ser integral.


Leonardo Torres, analista junguiano

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