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Sem Paciência? Leia o que a Psicologia Analítica tem a dizer

Atualizado: 14 de abr. de 2022

Por que ter paciência?


"Paciência" é uma palavra em escassez atualmente. Diferentemente do que entendemos popularmente como "a capacidade de não perder a calma", a ideia de paciência que trago aqui é dissonante desta explicação. Afinal, quando se trata do ser humano é uma grande mentira existir algo que o mantém em um único estado o a todo momento. Ser humano é ser fluido, querendo o ego ou não, as emoções, os sentimentos e os pensamentos nos atravessam constantemente.


Paciência e Psique
Eros e Paciência

O que seria então "paciência"? Essa palavra, do latim, é patientĭa, uma soma entre "pathos" e "sciencia". Pathos é a raiz latina das palavras "paixão" e "sofrimento", no sentido de "viver na pele", "passar por algo". A Paixão de Cristo é um grande exemplo disso. Já, Sciencia pode ser entendida como uma consciência de algo.


Portanto, "Paciência" é a tomada de consciência daquilo que atravessa o indivíduo; daquilo que ele está passando; ou daquilo que ele sente na pele. E isso demanda de tempo.


Muitas vezes, quando deparamo-nos com os outros desagradáveis em nós, isto é, quando os complexos são constelados e nos dominam, tudo o que queremos é uma solução rápida e prática (ainda mais quando estes outros fazem estragos no mundo de fora). Aqui não me refiro aos benzodiazepínicos, que podem auxiliar em demasia com o processo, mas à vontade infantil do ego de uma solução mágica.


"A psique não é um fenômeno da vontade, mas natureza que se deixa modificar com arte, ciência e paciência em alguns pontos, mas não se deixa transformar num artifício [solução mágica], sem profundo dano ao ser humano" - Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica.


Estes outros em mim ou complexos, como queira chamar, parecem não possuir qualquer valor, mas para C. G. Jung, são demasiadamente valorosos para criarmos paciência. Somente no embate e no confronto entre o eu e o outro é que se pode aprender, apreender e compreender o que é paciência.


"Deus criou as moscas e as demais pragas (que tal o pernilongo à noite?) para que o homem se exercite na virtude da paciência. Por mais tolo que seja esse pensamento do ponto de vista da ciência, ele é sábio do ponto de vista da psicologia" - C. G. Jung.


Simbolicamente, os insetos, animais invertebrados, provenientes dos esgotos, pântanos, grutas, representam aquilo que é mais primitivo (no pior sentido da palavra) e mais grotesco (o que vem da gruta) em nós. Não à toa são os maiores receptáculos, entre os animais, de projeções da sombra pelo indivíduo moderno. Se adicionarmos ainda a condição de massa, isto é, da quantidade avassaladora que acaba por eleger tais insetos como "praga", encontraremos uma representação da sombra coletiva.


Já que pré-definimos que o ser humano não possui um único estado (se quiser aprofundar-se nisso clique aqui), mas diversos, podemos entender que a psique não corresponde à monocultura. Aquela aspiração de um remédio rápido e prático nunca funcionaria como os agrotóxicos modernos. Na realidade, nem os agrotóxicos modernos tendem a ser benéficos. Isso significa que o tratamento que devemos dar à psique não é industrial, mas artesanal: cuidar planta por planta, folha por folha, fruto por fruto, lidando com inseto por inseto.


Ademais, trazendo ideias alquímicas:Qui patientiam non habet manum ab opere suspendat, traduzindo: "quem não tiver paciência, retire a mão da obra". Ou seja, a opus (trabalho) da paciência é importante para prosseguir pelo processo da individuação. Isso coloca o indivíduo com paciência próximo ao agricultor, ao jardineiro, ao alquimista – todos papéis ativos perante à obra da individuação. Diferente da passividade que hoje encontramos na palavra "paciente", como o "doente".


Jung afirma que o mais importante objetivo da psicoterapia "não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade", isto é, para a solução mágica, mas ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento – a consciência daquilo que atravessa o indivíduo; daquilo que ele está passando; ou daquilo que ele sente na pele. Pois a vida acontece em uma dinâmica entre a alegria e a dor, não é à toa que vem daí o termo: paciência de Jó.


Leonardo Torres, Analista Junguiano.










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