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Psicologia analítica e a mão de Deus

Marie Louise von Franz nos fala que talvez a arte maior de Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica, tenha sido sua capacidade de adentrar nas sombras humanas e encontrar a mão de Deus em meio a tudo isso. E enquanto analistas, nós seguimos esse movimento de C. G. Jung.



Na análise, encontramos de tudo! Brigas conjugais, ciúmes exagerados, ressentimentos reprimidos, fantasias sexuais, preocupações financeiras e muitos outros que perpassam por todos nós ao longo da vida. Ninguém escapa. Tanto analista quanto cliente acabam por adentrar em todo contexto e circunstância humana, demasiadamente humana.


Muitas vezes presenciamos clientes se perguntando o porquê – a origem – de determinado sofrimento. O porquê tenta evidenciar a razão. E como sabemos desde os tempos escolares, a razão é uma parte somente. Seria como tentar reduzir os movimentos da vida a um único movimento responsável por todos os outros. Isso é mera ilusão.


Eu costumo brincar que com os clientes que me questionam sobre o porquê eles terem esse ou aquele pensamento, sentimento, comportamento: "se nem os filósofos acharam uma resposta para os porquês da vida, imagina a gente!"


A arte de C. Jung estava em se perguntar o para quê do sofrimento. Ele conduzia o seu cliente para um objetivo, ou melhor, um telos. Por exemplo, um cliente um dia me perguntou o porquê de seu pai ter o abandonado quando criança. Com essa pergunta, não chegamos a nenhum lugar!


Nem se perguntássemos para este pai seria possível descobrir – muito provavelmente a sua justificativa teria mais a ver com os seus mecanismos de defesa do que o que realmente aconteceu.


No entanto, sugeri ao cliente se perguntar para quê o pai o abandonara. Ele com prontidão me respondeu: "para que eu visse nos meus professores uma figura paterna e no meu avô também, que foi um grande trabalhador. Isso, de certa forma, me formou... Hoje sou professor e amo o que faço!" Encontramos aí uma pequena parte da mão de Deus!


Podemos entender Deus como um ser metafísico. Mas, podemos também reconhecê-lo como um movimento psíquico que leva o indivíduo a ser quem ele é. Em termos da psicologia analítica seria o ego realizando o Si-mesmo.


Não é uma tarefa fácil, mas, com toda certeza, quando adentramos o fundo do lodo turvo e confuso, encontramos ouro.


Leonardo Torres, analista junguiano.





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