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O Poço da Alma Humana



O filme “O Poço” chegou na Netflix para colocar o dedo em uma ferida que muitas pessoas tem e não querem enxergar; sentem, porém, fingem que não dói. Na verdade, não existe um humano que não a tenha, pois ela faz parte da essência de toda a humanidade. O Poço é basicamente o hoje e o passado, basta caminhar pelas ruas para entender os "poços" em que vivemos e uma leitura rápida de Yuval Noah Harari em Sapiens esclarece os “poços” de antigamente. Lendo o autor, é fácil chegar a conclusão que o homo sapiens é a espécie mais cruel de todas e a única espécie que mata por prazer.

As últimas análises do filme o comparam diretamente ao Capitalismo. É, sem dúvidas, uma analogia muito interessante, contudo, ainda me pergunto se existe uma relação de causa/consequência nisso, no sentido até rousseauniano "o homem nasce bom, a sociedade que o corrompe". A causa da crueldade e do puro mal exposto no filme seria devido a maneira que o poço funciona? Talvez tenhamos ainda que pensar além.


Thomas Hobbes parece ser mais plausível: “o homem é o lobo do homem”. Talvez, em o Poço e na vida humana, não haja causa/consequência; haja relação: quem entra no poço já possui dentro de si o mal, a crueldade, o instinto mais bárbaro e deixa estes fluírem por meio do sistema, modificando até o próprio sistema, que corrobora e reafirma as atitudes cruéis. Adam Smith é um grande exemplo quando afirmou que sem a solidariedade o capitalismo não poderia prosseguir em prol da riqueza das nações. O problema do sistema atual não foi Adam Smith ou qualquer outro que o seguiu, mas, a incapacidade de lidar com a própria ganância, mesquinhez e avareza de cada um de nós. Projetamos o mal no sistema, recriando-o, e ele, por fim, nos recria piores ainda.

Não à toa o papel da realidade consolidada, do sistema estabelecido, é representado no filme por um velho. Ele é o status quo, a obviedade, a frase "sempre foi assim", "as coisas são como são". O que o status quo nos diz? "É melhor ter uma faca do que um livro, e ainda, garanta que ela seja a da propaganda, pois ela é a mais afiada".

Eis as dualidades do filme: entre o novo e o velho; o livro e a faca; Don Quixote – uma imagem do herói e da esperança – e a faca da propaganda que espera a carne para dilacerá-la. Que dualidades são essas senão da própria alma humana? Temos pensamentos e emoções "novos" que ressignificam tudo e todos, mas também pensamentos e emoções "velhos" que incomodam, não querem mudar ou serem transformados. Temos infinitos livros dentro de nós, diversas histórias a serem contadas, um universo interior a ser entendido, mas ao mesmo tempo, ao defrontar com algumas questões desse universo interior, queremos pegar uma faca para nos defender, para atacar, ferindo não somente a nós mesmos, mas também pessoas ao nosso redor.

O homem é o lobo do homem, diz Thomas Hobbes. A ciência já comprovou que além da agressividade dos lobos, eles são extremamente empáticos e possuem um comportamento embebido de cuidados com todos de uma alcateia. Esta ambivalência também é presente no ser humano. No filme, a personagem considerada louca e agressiva, na realidade, é uma mãe que desce todos os dias para alimentar sua filha no último andar do Poço, demonstrando uma profunda empatia com quem ela ama e, de alguma forma, revelando também uma esperança de sua filha sair do Poço, pois, provavelmente, a menina nasceu lá, já que a administração diz não aceitar crianças.


Ela é o Don Quixote. Essa esperança provinda do instinto materno, esse amor capaz de sacrificar tudo e todos para o seu filho sobreviver, somente mães podem entender. Então, é do último andar, lugar mais sombrio, da gruta ou do poço bem como do útero escuro mas fértil que a criança se torna a mensagem: sempre haverá luz não importa quão sombrio seja, afinal a luz e a sombra são indissociáveis na alma humana.

De certa forma, a única conclusão que se pode tirar disso é que o ser humano tem o poder da escolha. Ele não pode negar o mal, a crueldade, a mesquinhez, a avareza de si. Se ele negar, elas o tomam. Cada um de nós pode aceitar esta condição do mal para fazer o bem. É uma atitude muito difícil e por isso mesmo é uma escolha. Nenhuma escolha é fácil. Se é fácil não é o indivíduo que está escolhendo, mas ele que foi o escolhido.


No filme, cada participante poderia escolher entre: a crueldade de comer além do que precisa (lembre que antes de entrar no poço os participantes escolhiam o que comer); e o saciar somente com o que foi pedido. Com este último, ninguém morreria de fome. Poderia-se escolher comer o mínimo, porém, no fim, todos acabam aceitando e sendo escolhidos pelo status quo para perpetuar a crueldade e o mal.

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