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O Mal para Carl Gustav Jung, Fundador da Psicologia Analítica

Atualizado: 14 de abr. de 2022

Fundamentos da Psicologia Analítica


Aquela famosa frase que circula na internet "o frio é ausência de calor assim como o Mal é ausência do Bem" não poderia estar mais errada. Contudo, ela revela um fenômeno interessante, a incapacidade da integração do Mal por cada indivíduo contemporâneo.


Psicologia Junguiana O Mal Existe

A sociedade ocidental é filha de uma concepção de mundo cristã, especificamente do Novo Testamento, que entende sua divindade suprema como um ser summum bonum (somente bom). E se o indivíduo é imagem e semelhança deste ser, ele deve ser também somente bom. C. G. Jung em livros como Resposta a Jó, Aion, Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade e outros, desconstrói a ideia de um deus "somente bom" e aponta que desconsiderar o Mal foi um desserviço à alma humana coletiva e à individuação.


Não é preciso aprofundar-se em C. G. Jung, fundador da psicologia analítica, para entender sua digressão, a crítica de um deus "somente bom" provém inevitavelmente das crianças quando perguntam aos seus pais: "se deus pode tudo, por que ele não acaba com a fome no mundo? Por que aquela criança está na rua e eu tenho uma casa?" E outras questões filosóficas que desmontam a concepção de mundo cristã dos pais. As perguntas das crianças já são tentativas de integração do Mal, mas muitas vezes são reprimidas pelos próprios pais, que acreditam que estas perguntas não devam ser feitas, pois pode ser “coisa do diabo” (e na verdade é).


Atualmente, há uma extrema identificação com o Bem e uma extrema desidentificação com o Mal, o que faz com que o indivíduo ou desconsidere que exista o Mal ou enxergue o Mal somente em outro indivíduo, mas, em ambos os casos, o Mal nunca está nele próprio. Quando o Mal é projetado, ou seja, visto no outro, este torna-se o Bode Expiatório que servirá para expiar o Mal, ou seja, aparentemente, acabar com o Mal para que ele nunca mais exista. Porém, evidentemente, este retornará e será projetado em outro Bode Expiatório enquanto o Mal dentro de cada um não seja integrado.


A necessidade do Mal ser integrado é extrema, afinal, assim como Heráclito afirma, há um movimento enantiodrômico da natureza, ou seja, assim que o Mal é integrado, o Bem também surge. Mefistófeles, ao se apresentar a Fausto diz: "Eu sou parte da Energia, aquele que sempre pretende o Mal e que sempre o Bem cria". Se não há integração do Mal, não há ação do Bem. Tudo o que parece ser promoção do Bem, é nada mais do que anomia e aparências: enquanto só acredita-se na integração do Bem, o Mal age sem freios.


Exemplos abundam: as igrejas evangélicas que diariamente exorcizam o diabo em seus adeptos; os abastados discriminam os mais desfavorecidos e os enxergam como ladrões e traficantes; em políticos que apontam dedos afirmando que os inimigos estão por toda parte; etc.


Estes mesmos exemplos tem sido incapazes de perceber o que os habita: como as inúmeras extorsões vendendo as toalhas suadas dos pastores e terrenos no céu; a inconsciência de que um motoboy e um morador de Alphaville, em São Paulo, são iguais, a diferença é que um teve mais sorte monetária do que o outro; os políticos que acreditam ser os heróis e na verdade são os maiores promotores da necropolítica.


Enquanto o Mal em si não for olhado frente a frente por cada indivíduo, a sociedade ocidental o banalizará, tentará apagá-lo e continuará apontando dedos, unilateral, rumo à sua própria aniquilação, isto é, o triunfo do Mal.


Leonardo Torres, analista junguiano.

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