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Do Predador Psíquico à Emancipação: uma análise junguiana sobre a violência contra a mulher

  • há 23 horas
  • 7 min de leitura

Atualmente, as questões de gênero ocupam espaço central nos debates públicos. Dispomos de um vasto volume de informações e de mecanismos legais que caracterizam comportamentos antes normalizados como violência de gênero, da violência psicológica, patrimonial e financeira até o feminicídio. Contudo, apesar desses avanços, os índices de criminalidade permanecem alarmantes.


Do Predador Psíquico à Emancipação: uma análise junguiana sobre a violência contra a mulher

O medo e a demora no "despertar" feminino ainda nos submetem a situações de violência que parecem, à primeira vista, inexplicáveis. É muito comum que a mulher, ao romper um ciclo de abuso, confronte-se com questionamentos dolorosos: "Como não vi?", "Como permaneci por tanto tempo?", "Por que normalizei aquela situação?". São muitas as perguntas que parecem sem resposta imediata. No entanto, a questão mais importante a se enfrentar é: como podemos transcender esse processo e alcançar um novo patamar de convivência pessoal e social?


Para responder a essa pergunta, faz-se necessário realizar uma breve análise histórica que constitui o arcabouço arquetípico da mulher. A começar pelo mito de Hera e Zeus. Hera representa o arquétipo do casamento, mas, sob o patriarcado, ela se torna a guardiã de uma estrutura que a fere e, para se proteger, projeta a sua dor nas mulheres com quem Zeus a trai.


A vingança de Hera contra as amantes de Zeus, em vez de contra o próprio Zeus, simboliza como a psique feminina, capturada pelo patriarcado, acaba por atacar a si mesma ou a outras mulheres, dedicando-se inconscientemente à manutenção do sistema opressor. Hera está na mulher que acredita que o casamento é a consumação da satisfação feminina, que adquire sentido a partir das realizações do marido. Convencida de que a união matrimonial é sagrada, ela permanece na sombra do marido, obcecada, rancorosa, furiosa e magoada.


Contudo, não nasce daí essa relação, o romance de Hera e Zeus vem de um abuso que a obrigou a desposá-lo para compensar a perda de sua virgindade. Zeus ardilosamente se disfarçou de cuco, uma ave que costumava colocar seus ovos nos ninhos de outros pássaros. Hera o acalentava em seu seio enquanto lhe confidenciava seus sonhos, até que Zeus tomou sua forma original e a violou, enchendo-a de desespero e dor. Situação na qual ela não enxergou outra saída que não o matrimônio.


Desde a formação mitológica, as relações são, em grande parte, estabelecidas sob a subjugação forçada da mulher e a sua consequente aceitação e normalização das relações abusivas. Ainda que sua relação tenha nascido de um abuso, Hera assume a persona da esposa e prefere renunciar à própria dignidade a romper com essa instituição. Porém, ainda assim, ficam guardados no âmago de cada mulher o rancor e a raiva da situação que lhe foi imposta e sentimentos que mais tarde servirão para a ruptura com o status quo.


Saindo da esfera mitológica e partindo para a história do patriarcado na formação das primeiras sociedades: estudos antropológicos, como os de Marija Gimbutas, sugerem que, em algumas coletividades primordiais, as relações poderiam ter sido mais igualitárias entre homens e mulheres, com tarefas compartilhadas por ambos os sexos sem uma hierarquia rígida; hipótese que, embora não seja consenso entre historiadores, ajuda a pensar a origem das divisões de papéis que viriam depois. Posteriormente, as tribos, no intuito de realizar parcerias e repassar tanto os conhecimentos adquiridos pelas mulheres quanto a sua capacidade reprodutiva, estabeleceram uniões por meio de trocas, de mulheres e de crianças, formando assim as primeiras alianças "conjugais". Com o passar do tempo, as famílias foram instituídas com a finalidade de garantir que os bens permanecessem dentro de um mesmo núcleo.


Seguindo a perspectiva da mulher como moeda de troca, focada na sua capacidade reprodutiva e na vida sob a sombra do marido, não foi difícil estabelecer a instituição da família nos moldes necessários à implementação do capitalismo. A família instituída no modelo nuclear patriarcal faz parte de uma estrutura que atende aos interesses de mercado. Nessa conjuntura, a mulher é alguém restrita às tarefas de reprodução e cuidado, e o homem, por sua vez, aquele a quem cabem as tarefas de sustento e trabalho fora de casa. Estamos impregnados de modelos patriarcais herdados de nossos antepassados tanto no campo social quanto no familiar e religioso, e esse sistema nos impôs e ainda impõe um modelo simplista de relacionamento, que não atende às necessidades das mulheres e dos homens da atualidade, de onde emergem grande parte dos impasses.


Todavia, não podemos esquecer que, para Jung, "a formação de um prestígio é sempre resultado de um acordo coletivo. Ninguém adquire prestígio por vontade individual exclusivamente; é necessária a junção da vontade de poder do indivíduo à vontade de submissão da massa" (JUNG, 2015, p. 39).


E é a partir dessa afirmação de Jung que nos perguntamos: de onde vem essa propensão a aceitar relações abusivas? Clarissa Pinkola Estés, no livro Mulheres que Correm com os Lobos, faz a análise do conto O Barba Azul, cuja narrativa revela:


O conto O Barba Azul é a história de um mágico fracassado que tinha uma queda pelas mulheres. Em um dado momento, ele cortejava três irmãs. Porém, elas tinham horror à sua aparência e à sua barba azul. Em certo dia, ele se encheu de cordialidade e as convidou para um passeio na floresta, fazendo de tudo para impressioná-las. As irmãs mais velhas mantiveram as suspeitas, mas a caçula pensou que, se ele podia ser tão encantador, talvez não fosse assim tão mal, e foi pensando dessa maneira que aceitou casar-se com ele. Desde então, passou a morar no castelo.


Certa feita, o Barba Azul iria realizar uma viagem e afirmou que a moça podia fazer o que quisesse, chamar as irmãs e aproveitar o castelo. Entregou a ela as chaves e disse: "Pode entrar em todos os aposentos, com exceção de apenas um", o que se abria com uma pequena chave com arabescos no alto. Então partiu, e as irmãs vieram. Foram de porta em porta descobrindo o que havia em cada aposento, até que ouviram um barulho e viram uma pequena porta que acabava de se fechar. Pegaram a chave, a porta se abriu, estava tudo escuro; ao acenderem uma vela, gritaram: uma enorme poça de sangue, ossos humanos, crânios empilhados. Fecharam a porta horrorizadas; e quando olharam para a chave, ela estava suja de sangue.


As três tentaram limpá-la, mas o sangue não saía. Em desespero, ela decidiu esconder a chave no guarda-roupa. O marido chegou e logo notou a falta da menor das chaves. A esposa disse que a havia perdido. Ele a tocou no rosto como se fosse fazer-lhe um carinho, segurou-a pelos cabelos e exclamou que não mentisse. Abriu o guarda-roupa e viu a chave sangrando, a manchar todos os vestidos. Então disse: "Chegou a sua vez, querida." A arrastou até o aposento da pequena chave, e só de olhar para ela a porta se abriu. Lá jaziam todos os esqueletos de suas esposas anteriores.


A esposa pediu um tempo para se preparar para a morte, e ele concedeu. Da janela do quarto, chamou as irmãs para que ficassem nos muros do castelo e perguntou: "Irmãs, nossos irmãos estão chegando?" Ao ver o esposo subir pelas escadas, interrogou novamente, e as irmãs disseram que eles haviam chegado e estavam subindo. Quando o Barba Azul adentrou os aposentos, os irmãos chegaram, o encurralaram e o golpearam, retalhando-o e deixando para os abutres o que sobrou dele. (ESTÉS, 2018, p. 54)


O conto refere-se a essa adesão a um predador por "vontade própria" e ao processo de amadurecimento psicológico até que se perceba a situação na qual se havia entrado. Ao entregar a ela a chave e afirmar que não poderia usar apenas uma, ele lhe deu uma ilusão de liberdade, enquanto, na verdade, não queria que ela se deparasse com a realidade, assegurando assim que ela não visse, não tivesse insight, não falasse, não agisse.


A partir do conto, compreendemos que temos um inimigo interior que perdura desde tempos remotos até os dias atuais: um predador inato, o aspecto sinistro que habita a psique. Podemos denominá-lo animus, sob seu aspecto negativo, não desenvolvido. Já os irmãos que vêm ao encontro da esposa são os aspectos positivos que levam a mulher a enfrentar o marido em busca da sua liberdade.


Esse aspecto sombrio da psique se identifica com as situações externas, nas relações da mulher com o trabalho, no relacionamento amoroso, na religião, na família, na cultura. Ele deseja a manutenção do poder, coexistindo e se identificando com o modelo patriarcal vigente.


O que não nos damos conta é que, ao nos submetermos a esse aspecto sombrio interno e ao opressor externo dos relacionamentos, abrimos mão também da nossa capacidade criativa, da nossa alma, da nossa essência, o que nos faz morrer aos poucos, guardando em nós sentimentos que nos ferem, como foi o caso de Hera.


Desse modo, não é interessante para a constituição social atual a emancipação da mulher, sua autonomia, uma vez que vivemos o império do poder em detrimento de eros, o amor. Parafraseando Jung: onde impera o poder, não existe amor; e onde este está, não existe vontade de poder.


É cada vez mais evidente que a sociedade atual carece do resgate do aspecto feminino, de eros, para que possamos superar os problemas de violência contra a mulher. É imprescindível que nos libertemos desse aspecto sombrio que nos impede de enxergar a face doentia dos nossos relacionamentos. A violência contra a mulher retrata o desespero da manutenção do poder sobre seus corpos, sobre sua vida e liberdade.


Quando analisamos os casos dos mais diversos tipos de violência, nos deparamos com um sem-número de injustiças praticadas contra a vida feminina, traduzidas em frases como "Se não é minha, não será de mais ninguém", "Sou eu quem sustenta esta casa", "Pensa o quê? Ninguém vai te querer." É entre essas frases, socos nas paredes, agressões físicas, alienações parentais, cerceamento de liberdade e muitos outros comportamentos que a mulher vem sendo violentada constantemente.


Diante desse panorama, nos perguntamos: por que fazer com que as portas da psique se abram? Para que questionar? Não seria mais fácil evitar o risco? Não trará mais sofrimento? Jung afirma que a forma mais adequada de adaptação humana exige olhar para os dois lados da vida: se por um lado temos a vida exterior, família, trabalho, sociedade, por outro, também temos as exigências da nossa natureza interna. Havendo negligência a qualquer uma dessas partes, a neurose se manifesta.


Assim, encontrar a mínima porta é importante; desobedecer às ordens do predador é importante; descobrir o que esse quarto abriga é fundamental. Quando temos acesso ao conhecimento, a mudança acontece naturalmente em nós e, consequentemente, naqueles que nos rodeiam. Desobedecer ao predador natural é o primeiro passo para a liberdade, porque, a partir do momento em que se vê, a partir do momento em que a chave começa a sangrar, não há mais como voltar atrás.


Se você está passando por uma situação de violência, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou 190 (Polícia Militar). Você não está sozinha.


Autora: Grazielle Queiroz, Analista Junguiana

Revisor: Leonardo Torres, Analista Didata Junguiano


Referências:


ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem. Tradução: Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.


JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Tradução: Dora Ferreira da Silva. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015. (Obras Completas de C. G. Jung, v. VII/2).

 
 
 

1 comentário


Sabrina Negri
há 3 horas

Excelente seu texto, Graziele, muito impactante, claro e didático. Útil para apoiar mulheres nessa tomada de consciência e caminho de individuação. Obrigada!

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