Apocalipse do Mundo de Dentro
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Um livro selado com sete selos, que ninguém no céu ou na terra é capaz de abrir, até que finalmente alguém o abre e o conteúdo do mundo começa a se revelar em cascata. "E vi um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos" (Ap 5.1). Vale pensar nesse livro como a própria vida de cada um, guardando em segredo tudo aquilo que ainda não se teve coragem de olhar de frente.
A própria palavra apocalipse, do grego apokálypsis, formado por apo, afastar, e kalýptein, cobrir ou velar, significa literalmente remoção do véu. Não é, em sua raiz, uma palavra sobre destruição, mas sobre desvelamento, o que já muda tudo, o fim de que fala esse livro talvez seja apenas o fim de um véu, não o fim de um mundo. Curiosamente, a mitologia nórdica guarda uma imagem irmã dessa: antes do Ragnarok, é a vidente da Völuspá quem é despertada do sono da morte para revelar, também em cascata, tudo o que ainda vai acontecer.

O Apocalipse de João e o Ragnarok escandinavo não precisam ser lidos como profecias sobre o fim do mundo exterior. Poderíamos sugerir que ambos são, na verdade, os relatos mais completos que suas respectivas tradições produziram sobre aquilo que acontece dentro de um de nós quando entramos na segunda metade da vida e começamos, quase sempre sem escolher, a se preparar para a própria morte. A própria palavra Ragnarok, do nórdico antigo ragnarök, une regin, os poderes, os deuses, a rök, destino ou curso, e significa algo como o destino dos deuses, não necessariamente sua aniquilação. Não a morte do corpo, ainda, mas aquela outra morte, mais lenta e mais silenciosa, que precede a primeira e que ninguém escapa. Essa morte da qual estamos falando goteja rítmica e friamente até que se torne uma lagoa quieta e aterrorizantemente pacífica.
Quando o primeiro selo se rompe, um cavaleiro branco surge: "e saiu vencendo, para que também vencesse" (Ap 6.2). É fácil ler essa imagem como conquista externa, mas talvez ela fale primeiro de uma ilusão que mora dentro de quem ainda não atravessou a metade do caminho, a certeza silenciosa de que a própria existência precisa ser vencida como uma batalha, e de que basta subir mais um degrau interno, provar mais uma vez o próprio valor para si mesmo, para que a angústia de existir se aquiete. É essa mesma certeza que começa a rachar quando os outros cavaleiros aparecem.
O segundo tira a paz da terra, "para que se matassem uns aos outros" (Ap 6.4), e nele reconhecemos a guerra que se instala dentro de quem começa a sentir duas vozes internas em conflito aberto, a que ainda defende a vida construída até ali e a que já não acredita mais nela, uma guerra civil da alma em que não há bando vencedor, só destroços.
O terceiro cavaleiro pesa o trigo na balança, e há algo de doloroso em sentir a própria vida interior sendo pesada assim, como se cada pensamento, cada lembrança, cada certeza antiga precisasse agora provar seu peso em grãos, e muita coisa que antes parecia fartura revela se, na balança, escassa, leve demais, insuficiente para alimentar o que ainda resta de caminho.
E o quarto cavaleiro, cujo nome era Morte, e o inferno o seguia (Ap 6.8), não bate à porta de fora, ele atravessa o corredor interno sem avisar, uma sombra que passa pela sala onde a pessoa está sentada consigo mesma, e que faz a mortalidade deixar de ser uma ideia guardada numa gaveta distante para se tornar a lagoa do frio e da paz aterrorizante, instalada no próprio peito.
Antes desses cavaleiros baterem à porta, os nórdicos já haviam imaginado seu próprio prenúncio: o Fimbulverano, o inverno terrível que dura três anos seguidos sem verão entre eles, no qual "irmão lutará contra irmão e serão fratricidas, os laços de parentesco serão quebrados". Fimbulverano vem de fimbul, grande, poderoso, imenso, somado a vetr, inverno, um superlativo, o grande inverno, não um inverno qualquer, e talvez seja essa a diferença entre o frio comum de uma fase ruim e o frio que anuncia que algo antigo em nós não vai sobreviver até a primavera seguinte. A semelhança não é sutil. Assim como os cavaleiros, o Fimbulverano não é o fim em si, é o esfriamento que anuncia o fim, o momento em que os vínculos que sustentavam a vida antiga começam a congelar antes mesmo da destruição chegar.
Depois dos cavaleiros vem a besta, e talvez não haja imagem mais precisa para a sombra pessoal do que essa figura que sobe do abismo, terrível e informe, "cheia de nomes de blasfêmia" (Ap 13.1). A besta aterroriza justamente porque condensa tudo aquilo que passamos a vida negando ter dentro de nós, a inveja que não se admite, a raiva guardada a sete chaves, o apetite de poder que se esconde atrás da bondade praticada em público.
O Ragnarok tem duas bestas equivalentes, e não por acaso ambas eram, na mitologia, filhas do mesmo deus enganador Loki: a serpente Jormungandr, que cerca o mundo inteiro por baixo das águas sem nunca ser vista, e o lobo Fenrir, que rompe as correntes mais fortes já forjadas e devora tudo à sua frente. Jormungandr une jörmun, enorme, vasto, a gandr, força ou monstro, a enorme força, e Fenrir carrega em seu nome o eco de fen, pântano, brejo, o habitante do lugar sombrio e alagado onde foi preciso acorrentá lo. Há algo revelador nisso, a sombra é sempre descrita como algo que vive submerso ou enlameado, como se a psique já soubesse, antes de qualquer teoria, que aquilo que negamos não desaparece, apenas afunda e espera.
Conhecemos gente que se via como boa e generosa a vida inteira e que, ao envelhecer, começou a sentir explosões de amargura que não reconhecia em si mesma. Isso costuma ser lido como sinal de que a pessoa está ficando difícil na velhice, quando talvez seja apenas a besta, ou o lobo, ou a serpente, finalmente subindo à superfície, exigindo viver antes que seja tarde demais para fazer as pazes com ela.
No Apocalipse, mais adiante cai Babilônia, "a grande, a mãe das prostituições" (Ap 17.5), esplendorosa e sedutora até o instante em que desaba, e os mercadores da terra choram porque ninguém mais compra as suas mercadorias (Ap 18.11). O nome Babilônia vem do acádico Bab ilu, porta dos deuses, e há uma ironia silenciosa nisso, um nome que prometia acesso ao divino tornou se, na memória bíblica, o símbolo máximo do excesso e da corrupção, como se todo portal para algo maior corresse o risco de ser confundido com o próprio destino, e ficasse ali, entulhado de ouro, sem que ninguém atravessasse a porta de fato. No Ragnarok, o que cai é Asgard, o próprio salão dourado dos deuses, incendiado quando Surtr atravessa o arco-íris com sua espada em chamas e lança fogo sobre a árvore do mundo. Asgard, de áss, deus, e garðr, recinto cercado, morada, significa simplesmente morada dos deuses, o lugar que deveria ser inatingível e que arde como qualquer outro.
Babilônia e Asgard são a mesma imagem contada por povos diferentes, tudo aquilo que construímos de mais brilhante é o mais frágil ao mesmo tempo: o cargo importante, a casa grande, a admiração alheia, tudo o que reluz e que um dia precisa cair para que outra coisa, menos vistosa e mais verdadeira, possa nascer em seu lugar. Não é raro que alguém se aposente depois de décadas de carreira e, meses depois, sem perder um centavo, mergulhe numa tristeza que não sabe nomear. Não é o dinheiro que falta. É Babilônia caindo, é Asgard em chamas, é a identidade que sustentava a vida inteira desmoronando de uma só vez.
Depois da queda vem o julgamento, e os livros são abertos, e os mortos são julgados pelas coisas que estavam escritas nesses livros. O Ragnarok não tem um tribunal, mas tem algo igualmente definitivo: a batalha final em Vigrid, onde cada deus enfrenta o adversário que sempre esteve destinado a enfrentar, como um ato de retribuição. Vigrid, de víg, combate, e um sufixo de lugar ligado a cavalgar, é o campo onde a batalha cavalga, o terreno já reservado, muito antes de qualquer um chegar nele, para o encontro que sempre esteve marcado. Odin contra Fenrir, Thor contra Jormungandr, Freyr contra Surtr, e nenhum deles escapa do próprio destino só porque é um deus.
Há algo profundamente humano nessas duas cenas, algo que reconhecemos somente em quem vê a Morte nos olhos. De repente, surge uma urgência de acertar contas que vinham sendo adiadas havia anos, de enfrentar, como os deuses nórdicos, exatamente aquilo que sempre soube que precisaria enfrentar um dia. Ninguém precisa de um juiz externo para isso. O próprio livro da alma se abre sozinho como uma fruta madura cai da árvore. Não sabemos quando irá acontecer. O destino se anuncia sozinho.
Depois de atravessado tudo isso, surge o novo mundo. "E vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido" (Ap 21.2), uma cidade quadrada, medida com precisão, "o seu comprimento é tão grande como a largura" (Ap 21.16), como se a totalidade só pudesse ser representada por uma forma perfeitamente equilibrada. Jerusalém, do hebraico Yerushalayim, parece unir uma raiz ligada a fundar ou lançar a shalem, paz, completude, a mesma raiz de shalom, algo como fundação da paz ou cidade completa, o nome já continha, muito antes da queda de qualquer coisa, a promessa do que restaria depois dela.
Os nórdicos, depois de afundarem o mundo inteiro nas águas, também viram a terra ressurgir, verde e fértil, "ela verá a terra erguer se de novo, do oceano, verdejante". Uma cidade quadrada descendo do céu e uma terra verde ressurgindo do mar são, no fundo, a mesma imagem, um símbolo de totalidade recomposta depois da destruição, uma espécie de recomeço que só pôde acontecer porque tudo o que veio antes foi de fato destruído.
Não é acaso que ambas as tradições fechem seus ciclos assim. Talvez seja essa a razão de conhecermos pessoas muito idosas, que já atravessaram seus próprios cavaleiros e seu próprio inverno terrível, sua própria besta e seu próprio lobo, sua própria Babilônia e sua própria Asgard em chamas, e que dizem coisas como "não tenho mais medo de morrer", "já vivi o que tinha que viver". Essa consolidação raramente aparece em quem fugiu do processo. Ela costuma visitar apenas quem foi obrigado, ou teve coragem, de atravessá-lo até o fim. Mas isso é um achismo, eu ainda estou no processo.
O fio condutor que atravessa todas essas cenas míticas é o medo de morrer, disfarçado a cada capítulo de uma roupagem diferente. Nos selos que se abrem e no sono profético que se rompe, ele aparece como a ansiedade difusa de quem já não consegue mais fingir que está tudo bem. Nos cavaleiros e no inverno sem fim, como o pânico concreto diante da primeira perda que dói de verdade. Na besta e no lobo que rompe as correntes, como a raiva e a amargura que a pessoa não reconhece em si e por isso teme ainda mais. Na queda de Babilônia e no incêndio de Asgard, como a tristeza de quem perde o papel que sustentava sua identidade. No julgamento e na batalha final, como a culpa e a urgência de enfrentar o que já não pode ser adiado. E na nova Jerusalém e na terra verde que ressurge do mar, quando tudo isso já foi atravessado, como uma aceitação que não tem nada de resignação, mas que se parece muito com paz.
Os dois livros terminam do mesmo jeito, prometendo que depois do fim há sempre um começo, "porque já a primeira terra passou" (Ap 21.1), ou uma terra nova que verdeja outra vez sobre as águas que a engoliram. Talvez seja exatamente essa a tarefa silenciosa da segunda metade da vida, deixar que a primeira terra passe, sem pressa de reconstruir tudo de novo do mesmo jeito, só para que, um dia, quando a morte finalmente chegar, ela encontre alguém que já fez, por dentro, a maior parte da travessia.
Autor: Leonardo Torres
Referências:
BÍBLIA. Apocalipse. In: Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida, Revista e Corrigida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil.
STURLUSON, Snorri. Edda em Prosa. Tradução direta do islandês antigo.
Völuspá (A Profecia da Vidente). In: Edda Poética.



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