As mãos do Estige
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Há uma imagem que atravessa a minha fantasia sobre a mitologia grega e insiste em voltar sempre que reflito sobre os momentos de crise psíquica: as mãos que emergem do rio Estige, o rio que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos. São mãos que puxam de supetão para baixo aqueles que colocam o pé fora do barco ou que tentam olhar por pura curiosidade o que jaz no fundo do rio.
O que não se fala muito dessas mãos é o porquê elas puxam. Será por puro prazer de tornar a vítima mais uma habitante do rio? E se essas mãos puxassem para se erguer e escapar do rio? Em um contexto real de afogamento existe um fenômeno conhecido como resposta instintiva de afogamento – quem está se afogando de fato quase nunca grita, quase nunca acena chamando socorro, como os filmes insistem em representar. O corpo, tomado pelo puro instinto de sobrevivência, pelo pânico, estende os braços lateralmente e pressiona a água para baixo, numa tentativa desesperada de erguer a boca por mais um segundo de ar.

Poderíamos sugerir que essa a mesma lógica que dá alma ao mito do Estige quando ele é lido não como advertência moral, mas como imagem da alma. Seria, então, o rio dos mortos também um retrato de um estado psíquico: aquele em que o indivíduo já não consegue respirar dentro de sua própria vida.
Se o Estige é aquele que separa o mundo dos vivos do submundo, poderíamos já de antemão imaginar que quem acompanha o barqueiro nessa jornada está prestes a descer ao submundo. Não uma morte literal, mas metafórica. E aqui morte é sinônimo de transformação, transmutação, metamorfose. Poderíamos sugerir que o rio é o limiar entre consciência e inconsciente, mas isso só nos levaria a mais teorias.
Essa jornada ao submundo pode ser lida de forma metafórica para os nossos momentos de crise. Seja um término casamento, mudança de emprego, doenças inúmeras e diversas outras situações que demandam do indivíduo um morrer metafórico, que ninguém quer e ninguém escapa. Temos a ingenuidade de olhar para esse mitologema e interpretar dois indivíduos separados, mas não concordamos que esses dois personagens sejam separados – ambos estão no indivíduo que desce ao submundo.
De um lado, temos aquele que está na água, à espreita, buscando desesperadamente qualquer concretude para se agarrar e escapar desse anil intenso que é Estige. Imaginemos estar ali: não há referências pois não há em cima e nem em baixo, há só água turva e escura, portanto, infinitude. Uma infinitude sem ar. Estar sem ar significa também que não há referência do inspirar e o expirar, o nosso primeiro movimento de apercepção daquilo que é dentro e fora – portanto, não há nem dentro, nem fora: há rio. Torno-me rio, só rio. Do outro lado, eis a vítima que está prestes a ser levada, descuidada, curiosa, inconsciente, acreditando que talvez dessa vez a viagem ao submundo seja menos dolorosa, angustiante.
Quem se afoga talvez não agarre o outro em prol da própria sobrevivência. Mas, agarra por pavor. No Estige, pavor do que nos tornaríamos quando alcançássemos o outro lado do rio e retornássemos. Pavor da morte da velha roupa colorida, como diria o poeta. Há em nós aqueles que preferem o afogamento conhecido à travessia misteriosa.
O Estige, ao separar vivos de mortos, consciente de inconsciente, separa também o que ainda somos do que já não sabemos quem seremos. É justamente nessa fronteira que mora o apego mais silencioso e sedutor: o apego à própria identidade velha, às verdades que já construímos sobre o mundo e às narrativas que fizemos acerca de nós mesmos. Coabitando a psique conosco, a mão que puxa do rio é a mesma que não deixa o processo alquímico acontecer.
Na psicologia, chamam isso de autossabotagem ou resistências. "As resistências devem ser consideradas com o máximo de atenção. É difícil levá-las suficientemente a sério, pois estamos sempre prontos a enganar-nos" (JUNG, Cartas V1, p. 70).
As mãos da resistência raramente aparecem como perigo igual ao mitologema do Estige. Mas o perigo é real. Ela se disfarça de cautela, de cansaço, de um simples não é hoje o dia certo. Ela sussurra que ainda não é a hora, que talvez semana que vem, que talvez quando as coisas se acalmarem, sabendo perfeitamente que as coisas nunca se acalmam o suficiente para quem tem medo da travessia. Assim vamos adiando nossa transmutação, convencidos de que adiar é uma forma de prudência, quando na verdade é apenas mais um gesto do afogamento.
O mais doloroso de tudo isso é o fato de que evitar essas mãos é muito custoso. Custa noites em que o corpo sente o chamado do rio e o peito aperta, sem saber se é medo de morrer ou medo de finalmente viver algo novo. Custa a solidão de perceber que ninguém pode fazer essa travessia por nós, nem o barqueiro, nem os deuses, nem aqueles que amamos e que insistem em nos ver como sempre fomos. A dor de atravessar não é apenas a dor da perda daquilo que se apodreceu, é a dor de precisar soltar a mão da verdade, mesmo sabendo que essa mão, por mais gasta e cansada, era também aquilo que nos manteve por tanto tempo.
Soltar a mão da verdade é morrer. E também nascer. Assim como o recém nascido infla dolorosamente os pulmões em seu primeiro respirar, o nosso primeiro fôlego do outro lado do Estige também não é suave. É um respirar que carrega ainda o gosto do luto daquilo que fomos e o medo do mistério daquilo que ainda seremos.
Para finalizar: ninguém atravessa o Estige uma única vez. Morremos e nascemos muitas vezes ao longo da mesma vida, e cada travessia exige a mesma força de confrontar as nossas fidelidades já apodrecidas. Ficar atento às mãos que querem nos agarrar é o desafio constante.
Autor: Leonardo Torres
Referências:
HILLMAN, James. O sonho e o mundo das trevas. Tradução de Gustavo Barcellos. Petrópolis: Vozes, 2013.
JUNG, Carl Gustav. Cartas de C. G. Jung: volume I (1906-1945). Petrópolis: Vozes, 1999.



Naveguei aqui pelo texto.. e pelo imaginário.. percorrendo memórias e sensações que emergem ao seguir na leitura dessa sensível reflexão.. o quanto as almas ficam aprisionadas pelo pavor e dúvidas, por isso é preciso a companhia do analista em alguns momentos para ajudar a tocar o barco em frente.
A linguagem simbólica deste texto tem uma profundidade singular. Em alguns momentos, me vi nesse rio — nas travessias em que ainda não há clareza, apenas a experiência de mergulhar, sustentar o desconhecido e buscar fôlego. Um texto que não apenas fala sobre transformação, mas nos faz senti-la.