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Breve Análise Psicológica da Barbie

Deveria eu estar pensando em assuntos mais sérios, filosóficos ou qualquer outra coisa do tipo, mas não. Estou eu aqui as cinco da manhã pensando no contágio psíquico de pessoas vestidas de rosa no shopping. Como sou movido pela curiosidade, resolvi compartilhar minha imaginação com o leitor.





Já conhecemos o sucesso mundial da Barbie. Tamanho ele é que fico me questionando se o filme realmente tocou com profundidade seus espectadores, mas isso pode ser presunção minha. Aqui não vou falar do filme, mas do que acontece antes do filme. Quero chamar atenção para a Barbie como um ser coletivo que atravessa a psique da humanidade contemporânea.


Nessas últimas semanas, tanto seres humanos como pets tem se vestido de rosa para ir aos shoppings assistirem o filme da Barbie. Aliás, até o Google fica rosa quando você pesquisa sobre o filme no navegador.


Sem delongas, isso se trata de um comportamento coletivo que surgiu subitamente, ou seja, de um contágio psíquico. "Ir de Barbie" para assistir a Barbie é um movimento relativamente brando pois não fere ou atrapalha o processo social. Porém, já presenciamos casos que um indivíduo ou outro queria ficar parecido esteticamente com a Barbie ou o Ken, e para isso acabou morrendo na cirurgia plástica.


Existe tamanha identificação coletiva com a Barbie que isso me chamou atenção. E se ela fosse humana? Não seria um culto? Felizmente, para a psicologia junguiana e hillmaniana, tudo o que afeta é real. Existe um ser que habita a boneca. E por isso vou fazer uma breve análise psicológica dela. Imaginemos que ela sentou na poltrona da clínica, olhou para você e começou a contar sua história.


Barbie nasceu e cresceu acreditando que seus pais eram Ruth Handler e seu marido Elliot Handler, cofundadores da empresa de brinquedos Mattel. A inspiração para o nome Barbie veio da filha humana do casal, Barbara. Contudo, o pai da Barbie não é somente Elliot, mas também Jack Ryan – um indivíduo que ficou omitido da história de Barbie até então.


Jack Ryan foi o designer-engenheiro que projetou a primeira boneca e também outros brinquedos. Ryan era um sujeito que cometia muitas desmedidas. Era narcisista, desequilibrado e obcecado por sexo; era o proprietário de uma imponente propriedade de 16 mil metros quadrados em Los Angeles, batizada de "O Castelo".


Esta residência extravagante era enfeitada com arcos reminiscentes da Grécia Antiga, armaduras medievais, pisos feitos de mármore lustroso; e na propriedade tinha até um trono situado no altar da grande sala. Neste local, o criador promovia festas orgiásticas em uma frequência semanal. De acordo com relatos de pessoas próximas a Ryan, ele tinha preferência por relações íntimas com modelos que exibiam a aparência estética da Barbie.


O que nos parece é que Ryan, o pai de Barbie, embebido do materialismo da época tentou buscar o princípio feminino (a anima) de modo pueril e ineficaz. Tentou encontrar o feminino em modelos e na confecção da própria Barbie e morreu sem entender que essa busca só é possível na medida em que o indivíduo olha para dentro de si.


Seguindo ainda esse rastro do pai omitido, devemos lembrar que Barbie tinha uma avó – a boneca Bild Lili – que também fora omitida. Lilli não foi concebida originalmente como um brinquedo para crianças. Ela foi criada para ser um brinde promocional para os leitores adultos do jornal "Bild-Zeitung". Lilli era uma personagem de uma tirinha de quadrinhos criada pelo cartunista Reinhard Beuthien, que aparecia no referido jornal. Na história, Lilli era uma secretária solteira, espirituosa e sexualmente liberada, de Hamburgo.


Depois de ganhar popularidade, a personagem foi transformada em uma boneca de 30 centímetros de altura, e sua aparência física foi projetada para ser mais voltada para adultos do que para crianças. A Bild Lilli tornou-se um sucesso instantâneo, primeiro na Alemanha, e depois em vários outros países europeus. Era de costume um homem dar uma Bild Lili para uma mulher para indicar que ele a desejava sexualmente.


Pai e avó omitidos – um pai demasiadamente insatisfeito com a vida e uma avó boneca sexual. Assim Barbie cresceu e não percebera que isso já estava em seu inconsciente, ditando sua vida. Barbie é um ser que herda a insatisfação de seu pai e nega a sexualidade e o corpo de sua avó. E mesmo omitido pai e avó intencionalmente, Ruth e Elliot acabam por corroborar com a neurose de Barbie, como é de se esperar.


Barbie cresceu em um momento de mudanças sociais e culturais. Graças a sua insatisfação, ela teve mais de 200 carreiras, incluindo astronauta, engenheira, médica, e presidente, desafiou as normas de gênero e promoveu a ideia de que as meninas podem ser qualquer coisa que quiserem ser, esta pode ser uma parte criativa da insatisfação herdada pelo pai. Se fosse humana, pensaríamos que ela não se aprofundou em nada, mas como é uma boneca, podemos relevar e colocar na conta do capitalismo.


Contudo, a parte mais destrutiva é outra – à medida em que os anos passaram, a boneca resolveu modificar seu corpo. A insatisfação quanto ao seu corpo levou à representações irrealistas do corpo feminino e à falta de diversidade nas bonecas, o que levou seus seguidores às clínicas de cirurgias plásticas e promoveu um impacto extremo contra a diversidade do corpo feminino e masculino (vamos incluir o Ken). Vale lembrar que a Barbie nutricionista vinha com um livro escrito: "dica para emagrecer: não coma".


Podemos ainda refletir: mas foi Ruth, Elliot e a demanda mercadológica que modificou o corpo da boneca. Se Barbie realmente estivesse em análise, poderíamos entendê-los também como complexos. Não se deixe enganar, as imagens psíquicas que fazemos dos nossos pais e a sociedade consumista fala em nossos ouvidos todos os dias.


Não seria errôneo imaginar que Barbie vive em um padrão arquetípico de Atená – virgem, guerreira, inteligente e que passa a vida tentando agradar o pai, Zeus que estava mais preocupado com as ninfas. Não podemos esquecer que Atená era quase uma órfã, nasceu sem mãe e seu pai nunca foi dos melhores. Barbie também, foi usada pelos pais e abandonada pelo pai designer. Assim como Barbie, Atená esconde o corpo com armaduras; já a boneca com as profissões. Poderíamos até pensar que a cor rosa vai contra esse movimento, mas devemos lembrar que o rosa nasceu como uma cor masculina, da aristocracia. As roupas da Barbie são, de certa forma, uma armadura. Tanto positiva quanto negativamente, isto é, serviu para enfrentar o patriarcado, mas também para esconder o corpo.


Barbie nos ensina uma lição: armadura demais faz o coração tornar-se plástico. Devemos, como diria Nise da Silveira, enfrentar o status quo, mas sem perder a alma. Barbie bebeu muito mais do que falaram o que ela deveria ser (perfeita) do que buscou quem realmente ela é. A insatisfação leva à busca pela perfeição. Sabemos muito bem que ser perfeito é para os deuses. Ser corpo é, felizmente, ser imperfeito. Barbie não entendeu isso e agora tem a oportunidade de compreender. Talvez, é essa crise que o filme retrata. Essa crise não é só da boneca, é de gerações inteiras. Não à toa o contágio psíquico da Barbie está ocorrendo!


Leonardo Torres, analista junguiano.









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