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A Mente Simulacro e o Labirinto das Fake News





O Brasil pós-eleições de 2022 presenciou movimentos um tanto quanto peculiares. Não estou me referindo aqui a quem escolheu um ou outro candidato, mas àquele grupo menor que não aceitou o resultados das urnas, alegando fraude, ficando cega para todo o processo de antifraude que a democracia brasileira desenvolveu, mesmo com a declaração do atual presidente reconhecendo sua derrota.


Olhando mais atentamente, pode-se reconhecer que o estopim das manifestações dessa minoria foram as mídias digitais que possibilitaram a disseminação de fake news – as notícias falsas. Em pesquisas anteriores, revelamos o quanto o fenômeno das fake news é contagiante ou infeccioso.


Quem dispara as fake news não está preocupado com a veracidade da notícia – quer, a priori, evocar emoções como o medo na população com intuitos bem definidos. O resultado deste movimento maléfico é tão satisfatório que na época da vacinação contra o COVID-19, sete em cada dez brasileiros acreditava nestas notícias falsas. E, evidentemente, hoje não é diferente.


É importante ressaltar de antemão que os meios de comunicação são os centros da sociabilidade humana – o papel desses centros é de criar realidade. Sobre realidade, vale lembrar que ela é um delírio coletivo aceito por uma maioria e nada mais, isto é, um consenso de imagens de uma sociedade que mantém e regula o modus operandi cultural e social.


Em épocas mais remotas, o centro da comunicação e da sociabilidade estava focada nos xamãs, depois na Igreja. Nesta época os mitos criavam consensos e narravam desde a criação do mundo até as peripécias dos deuses. As sociedades se organizavam e se civilizavam a partir dessas cosmovisões e do confronto entre elas. Ainda sobre o confronto entre cosmovisões, não à toa temos ainda hoje diversas narrativas sobre mitos e deuses. Isso garantia que o fenômeno da realidade fosse furtacor e promovia certa alteridade. A ritualização possuía um papel importante aqui – era também uma atualização e uma superação das tensões entre cosmovisões.


Depois, na comunicação de massa como a televisão e o rádio. O que fez com que a modernidade se reorganizasse na que vemos atualmente – consumista, meritocrática e padronizada. Mais recentemente, as mídias digitais criam bolhas de informação e desinformação – levando a criação de consenso e de realidade à fragmentação. Aqui não está se defendendo a ideia de que em épocas mais remotas não haviam notícias falsas, mas apontar que nunca na história houve um momento tão fragmentado e volátil da realidade.

Encontrar a causalidade do momento atual não é tarefa difícil – basta perguntar: “a quem serve o Graal?”. Isto é, a quem serve a criação da realidade?


Para os povos primevos até um pouco antes da consolidação da Igreja, a criação de consenso servia à população, garantindo desde a sobrevivência até a passagem dos ensinamentos da tribo. Com a Igreja e o patriarcado houve uma transição até encontrarmos uma sociedade na qual o consenso e a realidade serviam a poucos indivíduos (poder). A partir da cultura de massas e da modernidade, a criação do consenso e da realidade passa a servir ao capital.


Já, as redes sociais, filhas da cultura de massa, somente evidenciaram esse processo. Hoje a criação da realidade, pautada pela disseminação do medo, é uma mantenedora do capital (e do poder que ele gera), infestando e contagiando a mente da população com o pânico e fazendo-a cometer os atos mais delirantes possíveis.


A imagem que se pode evocar para simbolizar o que o brasileiro presencia no clima pós-eleições é o do Labirinto. Constituído por um conjunto de caminhos tortuosos, confusos e intrincados, eles possuem o intuito de desorientar aqueles que são capturados. Na mitologia grega, o labirinto de Creta, construído por Dédalo – exímio arquiteto, enclausurava Minotauro. Quem o assassinou, Teseu, tendo que entrar no Labirinto, iria facilmente se perder se não fosse o fio de Ariadne que lhe proporcionava uma referência com o mundo exterior.


O fenômeno das fake news é um labirinto que possui ventanias que criam um empuxo de captura. Quem entra perde-se de tal maneira que passa a acreditar que o próprio labirinto é mais real do que qualquer outra realidade. Aquilo o que Jean Baudrillard denomina de simulacro.


Este real mais real que a realidade seria, no caso, uma unilateralização totalitária de ideias. O indivíduo no labirinto percebe somente duas direções, para frente ou para trás, mesmo quando existe uma bifurcação. Deixando assim sua cosmovisão divida entre bem e mal; certo e errado; bonito e feio; etc. As tonalidades da vida não são mais reconhecidas neste lugar tortuoso.


Por ser uma unilateralização totalitária e não haver outros tons não é possível reconhecer conexões e relações entre os fenômenos da vida. Por isso mesmo, algumas opiniões e comportamentos tendem a ser contraditórios, como, aqui no Brasil, pedir uma intervenção militar para evitar uma ditadura.


Não seria exagero sugerir que quem está preso no labirinto possui uma mente simulacro. O simulacro nada mais é do que uma dissociação. Entendemos dissociação na psicologia por conteúdos e aspectos da personalidade que foram excluídos da consciência, fazendo com que, como diria C. Jung, a mão direita do indivíduo não saiba o que a mão esquerda faz.


“O médico precisa estabelecer um relacionamento com os dois lados da personalidade de seu paciente, pois somente assim poderá recompor o homem em sua integridade e não se ater apenas a um dos lados, reprimindo o outro. Isso o paciente fez sempre, porque a cosmovisão moderna não lhe deixa outra alternativa. Em princípio, sua própria situação individual é a mesma que a coletiva. Ele é um microcosmo social que reflete em pequena escala as características da grande sociedade ou, ao contrário, o indivíduo é a menor unidade social a partir da qual resulta, por acúmulo, a dissociação coletiva. Esta última hipótese nos parece mais provável, na medida em que o indivíduo é o único portador imediato e vivo da personalidade singular, enquanto que a sociedade e o Estado representam apenas ideias convencionais e só podem pleitear a realidade quando se acham representados por um certo número de indivíduos. (JUNG, 10/1, §553).


Isso faz com que o indivíduo crie uma fobia à diversidade de outras realidades, fazendo com que ele não crie uma reflexão, uma crítica e julgamentos das ocorrências na sociedade, levando a unilateralização da vida e a quase extinção da alteridade.


O distanciamento da adversidade é, sob a ótica junguiana, um distanciamento do si-mesmo. E somente ele poderá livrar-nos do contágio psíquico de pânico e da dissociação psíquica a qual vivemos hoje. Como acreditamos no si-mesmo, com maior ou menos sofrimento, superaremos essa fase, e quem sabe, capacitar-nos-emos melhor para enfrentar as possessões psíquicas que teremos que enfrentar hoje e no futuro.


Contudo, este trabalho é singular – pessoal. Para C. G. Jung ninguém pode-se valer de fórmulas “tenho que”; “deve fazer”; “os 5 passos para”, pois isso seria cair novamente na coletividade unilateral e totalitária.



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