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Precisamos dos Likes porque não nos aceitamos mais



As curtidas ou os "likes" tornaram-se uma compulsão. É basicamente a “febre do ouro” das redes sociais. Impressionante é a quantidade de pessoas que buscam os tão desejados likes e curtidas. E ainda, quem "chega lá", nos milhões de seguidores e seus likes, ganham o status de influencer e tornam suas vidas grandes mercadorias. Hoje, a indústria dos likes é algo sério e deve ser estudada. Ela afeta desde a economia, ao modo de viver em sociedade e até as nossas mentes. Isso tudo gera uma questão: por que precisamos tanto dos likes?



Estudos da Antropologia afirmam que o ser humano é um ser naturalmente gregário, isto é, ele precisa viver em bando, em grupos: nasce em família, posteriormente vai para os grupinhos da escola/faculdade, então, vai trabalhar em uma empresa, não à toa o denominam de colaborador (aquele que trabalha junto de outros), e daí quer formar outra família com parceiro(a), filhos, pets e por aí vai a vida.


Por viver em grupos, a Psicologia e a Etologia (estudo do comportamento) apontam que um indivíduo somente consegue entender quem ele realmente é no relacionamento com outros indivíduos. Apesar dele conseguir delimitar o "eu" e o "outro", no sentido de "eu não sou como aquela pessoa", e devido à solidão que essa delimitação gera, há também o movimento contrário: o indivíduo, quando construído um vínculo com outros, acaba agindo e pensando similarmente a estes outros indivíduos ou grupos, isso é denominado de Mimese. Aquela famosa frase "me digas com quem andas que te direis quem és" possui certa verdade neste caso. No fundo, existe aí uma necessidade de pertencimento.


E onde os likes entram nisso? A Ciência da Comunicação tem apontado que o ser humano passa cerca de 9 horas diárias na internet. Ou seja, grande parte da sociabilidade do ser humano está nas redes sociais hoje. A partir do momento em que alguém divulga uma fotografia de si, ela coloca à prova a sua imagem diante de todos de uma rede social.


Na regra das redes sociais, resumidamente: muitos likes significam a pessoa é aceita por todos; poucos likes significam, no mínimo, um tente novamente.



Curiosamente, ambas as situações são prejudiciais se a pessoa não possui uma relação saudável com as redes sociais. Uma foto com muitas curtidas cria uma expectativa e uma pressão em quem posta. Parece uma obrigação conseguir o mesmo ou um melhor resultado na próxima foto. Já não obter sequer uma curtida tende a significar que a pessoa não é aceita por ninguém, o que acaba por criar um sentimento de exclusão. Em ambos os casos sintomas depressivos, de ansiedade e de pânico podem surgir.


Surge então uma dinâmica compulsiva entre postar fotos e receber likes. Sinteticamente, os likes tornam-se viciantes.


Quando o indivíduo percebe que ele não é a imagem postada, e que os outros aceitam a imagem e não ele em si, acaba por frustrar ainda mais. A imagem postada, muitas vezes editada, faz com que o indivíduo acabe por tentar se reconhecer nela, e somente nela. Mas, uma única imagem editada é pouco para entender e perceber quem realmente se é. O ser humano é muito mais complexo que uma imagem nas redes sociais.


Quanto mais se tenta ser estas imagens da internet, mais se acaba negando a complexidade real de ser quem é. Ou seja, o ser humano tem sido muito mais as suas máscaras do que a sua alma.


Identificar-se somente com as próprias máscaras é não aceitar a integridade de si.


Uma foto alegre, comendo comida saudável, fazendo esportes, editada de acordo com o autoritário padrão de beleza social é de longe o que um indivíduo é na íntegra. Ele também acorda de mau humor, ele tem tem tristezas, a vida também dá errado para ele, e também sente fome de um fast-food, tem preguiça, e com certeza, ninguém se encaixa no padrão de beleza, afinal, ele é feito para aquecer a indústria de cirurgias plásticas, entre outras.


Este é o momento para tentar relativizar o uso das redes sociais. Este texto é um convite para isso. Se o indivíduo buscar mais relacionamentos e vínculos fora das imagens da internet, com certeza, ele será mais aceito da forma que ele realmente é. Isso não significa que os relacionamentos “offlines" sejam mais fáceis, afinal, não existe um botão de "bloquear" na vida real. Precisamos filtrar os verdadeiros vínculos. Mas, com certeza, eles promovem uma noção de pertencimento maior, promovendo relacionamentos mais saudáveis, e consequentemente uma vida mais saudável.




Autor: Leonardo Torres, 30 anos,analista junguiano, palestrante e doutor em comunicação e cultura.



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