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O estranho que extraño: sobre fantasias do amor

Talvez o título traga estranheza, mas foi o que me veio. Extrañar em espanhol é sentir saudade, falta e também admirar, afinal, para se admirar é necessário que o outro esteja em um lugar diferente do nosso. Sentimos saudades de pessoas queridas, que já se foram e aquelas que deixaram nossas vidas e não olharam para trás. Mas, não é sobre isso que escrevo. Escrevo sobre aquele estranho ou estranha que sentimos saudades e admirações imensas.



Aquela pessoa que, frequentemente, pega o mesmo ônibus ou o metrô que você. Quanta saudade ou admiração pode surgir disso, e do nada?! O caso do transporte público é maravilhoso, acabamos por tentar embarcar no mesmo horário, só para conferir se a pessoa também embarcará. Será que ela irá me perceber?, pensamos.


Admiramos de rabo de olho seus olhos estranhos, sua boca estranha, a forma de se sentar, suas roupas; como seria sua risada, o que o estranho estaria pensando neste exato momento. Se por um acaso os olhos se cruzam, desviamos, fingimos que nossos olhos somente estavam vagando pelo transporte público e jamais estariam fixados no estranho. Nessas horas, acabamos por nos pegar indagando "pareço o Joe do seriado". Sem dúvidas, um pouco, somos.


Se um breve encontro sem diálogos já assim nos deixa. Imagine passar uma noite de entrega, conversando, refletindo, rindo e fazendo amor com o estranho. O que pode surgir daí senão a ferida mais pesada a ser carregada: a flechada de Eros, o deus o Amor. Também pode nada surgir, isso, entretanto, não vem ao caso neste momento. Neste encontro, passaram-se somente horas e a vontade de nunca mais deixar o estranho já está vasculando as veias dos nossos corpos. E como o coração nos ajuda a bombeá-las, alimentando-nos com fantasias jamais vistas e sensações únicas!


Não preciso me delongar mais, pois aqui já nos deparamos com nossas memórias. A paixão, o amor ou o que quer que seja, pois estou colocando tudo num balaio só em defesa da não conceituação do Amor, é caótica e é invocada em nossas almas. Somente uma coisa sabemos, Eros, o destruidor de casamentos, o incendiário de cidades, o monstro-marido de Psiquê, acabara de deixar a sua marca.


Então o estranho toma seu rumo. O rapaz ou a moça vão para as suas casas, o passageiro desce do ônibus. O silêncio toma conta de uma forma tão sagrada quanto diabólica. As fantasias ficaram em nós. Parecem ter vindo do próprio estranho, de alguma maneira estranha, num piscar de olhos. Como se ele fosse o possuidor das fantasias. Então, acabamos por sentir a falta do estranho, isto é, extrañar o estranho.


A ferida não fora aberta à toa. Que encontro necessário! Contudo, as fantasias que da ferida surgem não são de posse do estranho, talvez ele sequer sabia um dia de tudo aquilo que nos invadiu. Talvez sejamos loucos o suficientes para contar, assim como outro rapaz do seriado que roubou uma trombeta azul para sua amada.


As fantasias já estavam em nós, mas escondidas. Eros somente abriu o caminho para elas pulularem na consciência. Ficaram lá escondidas, fazendo pressão para serem aceitas. O que as reprimiam? Podemos nos perguntar. Ora, as demandas da história pessoal, da sociedade e até da família poderiam negligenciá-las veementemente. Fazendo-nos acredidar que elas errôneas e maléficas. Quantos de nós já não escutamos e fomos reprimidos ou nos repreendemos por estarmos apaixonados e sofrendo? O conselho geral é manter-se na superficialidade das conexões que podem se romper rapidamente e atingir o gozo na fricção genital. Para quê se preocupar com os vínculos, as emoções, sentimentos e fantasias? Muitos pensam "isso não leva a caminho algum". Em minha opinião, sou um devoto de Sandman.


Ainda, se o Destino quiser, Eros pode também ter aberto uma ferida no estranho, criando assim uma alquimia de humores, calores, saberes, sabores, cores e amores. Ambas feridas abertas é como a arte de cozinhar: um e outro acrescentam ingredientes. Por vezes, o molho sai divino e harmoniza com o vinho, outras explodem de forma diabólica, isto é, do grego, διάβολο, aquilo que separa. Isso não significa temos que almejar ou um ou outro. O melhor molho, para mim, é aquele divino que borbulha e explode na boca (com pitadas de manjericão e pimenta).


A ferida de Eros não é qualquer ferida, vale a ressalva, é aquela que nos coloca em queda. Tampouco é rasa. É um precipício, um abismo. O chamado fall in love inglês. Temos medo do abismo, do espanto, do mistério. Seria bom, no entanto, lembrar que não é a queda que mata o indivíduo, mas a aterrissagem. No fundo, somos uma mescla da queda e da aterrissagem: temos asas mas queremos os pés no chão, aterrados. Talvez Ícaro tenha nos ensinado isso. Parafraseando o mito: nem tanto aos céus, nem tanto ao chão. Eis a antinomia da árvore, seus galhos alcançam os céus na medida em que vascularizam suas raízes aos infernos.


Sem juízo qualquer de valor, tornamo-nos precipitados, palavra ensinada ampliada a mim por uma paixão, vem do precipício, ao nos defrontarmos com as fantasias que provém do abismo sem fim. Se lançarmos o olhar para o universo, nunca deixamos de ser precipitados, o que é um universo senão uma queda dançante das galáxias, das estrelas e dos planetas para o mistério, para o infinito? E quem disse que na queda em Amor também não podemos dançar? Essa é a dança das fantasias do Amor, na sede, na fome e na satisfatisfação de amar e ser amado.


Leonardo Torres, analista junguiano.





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1 Comment


Débora Duarte
Débora Duarte
Sep 09, 2022

Maravilha de texto !!! Me colocou a refletir muito com as palavras, kkkk.....

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