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A carta de um junguiano a sua esposa

Hoje, minha esposa completa mais algumas primaveras. Nestes alguns anos casado, a vida me convidou não somente a aproveitar os momentos com ela, como também olhar para a sombra em mim; para as expectativas e para as projeções que me habitam. Ou seja, aprender com a consciência e com o inconsciente dela.

C. G. Jung sempre pensou nas profundezas da alma, é verdade, porém, ele também sempre considerou importantes os vínculos que criamos, chamando até de reações alquímicas, que quando ocorrem, nada volta ao seu estado original.


O casamento é (ou deveria ser) um contrato social de duas pessoas que estão projetando anima/animus um no outro. É aí que a coisa complica e complexifica. O primeiro e inevitável passo é quando tal projeção acaba. É o momento em que aquela paixão inicial, como pathos, ou melhor, sofrência – repleta de expectativas –, começa a diminuir.


É como se antes enxergássemos a perfeição e de repente, num dia pela manhã, o conjugue acorda inteiramente imperfeito. Este momento, entre pessoas que não querem buscar a sua profundidade, o casamento finda. É o momento que Eros deixa Psiquê e o mundo torna-se preto e branco. Já ela (espero eu rs) e eu decidimos entender quem é este ser sem os óculos do pathos (da projeção).


O que resta depois de tantas expectativas de "eu" frustradas? Resta perceber o ser humano ao seu lado como ser imperfeito, mas cúmplice de vida. Aquele que mesmo com todas os defeitos que colocamos e que eles acham que tem (nossas percepções moralistas), continua ao nosso lado. Essa cumplicidade é rara e aduba o que vem a ser o amor. Atenção: excluso caso de relacionamento tóxico.


As brigas e os momentos de infelicidade, em um casamento, tendem a ocorrer, e por isso mesmo, aprendi a olhar para dentro, para as explosões, implosões, expectativas e perspectivas egóicas. Mas também, coletiva, afinal, como filho de uma época eu não posso não lutar contra o patriarcado e o machismo incrustado no meu ser. A luta, portanto, é subjetiva e coletiva. Isto é o mais difícil, pois o casamento é duplo: é com a pessoa (subjetiva) e com anima/animus (coletivo).



Todavia e curiosamente, depois de se entregar às dores e lutar com a sombra, a projeção não se vai completamente. Eros retorna. Neste momento, estou, entusiasmado com anima, escrevendo este artigo dedicado a minha esposa e seus anos de vida. Parabéns, meu amor. Não se esqueça que eu também sou imperfeito. Caso você se esqueça, eu, consciente ou inconsciente, farei questão de lembrar.


Inteiramente seu,

Léo.


Autor: Leonardo Torres, 30 anos, analista junguiano, palestrante e doutor em comunicação e cultura.


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